Rosana Gimael Blogueira

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

ENTENDENDO O DISCURSO DE "AGRO É TECH, AGRO É POP, AGRO É TUDO"



Desde o  mês de junho de 2016, a TV Globo passou a exibir uma propaganda chamada “Agro é Pop”, produzida pela própria emissora para fortalecer o agronegócio no país. Mas o que existe por trás dessa aliança, que inclui o próprio presidente interino Michel Temer?

A relação dos grandes veículos de comunicação com os setores hegemônicos da economia brasileira não é novidade para ninguém. Há pouco mais de dois anos, a Rede Globo, começou a circular em seus canais a propaganda “Agro é Pop”.
Junto a isso, a emissora é agora um dos principais veículos de divulgação de campanhas publicitárias da JBS-Friboi e produtora de conteúdo para a empresa com uma plataforma digital instalada na Globo.com. Financiadora de 50% das campanhas do PT e do PSDB em 2014 e alvo da Operação Lava Jato, o grupo JBS doou oficialmente R$ 22,6 milhões ao PMDB em 2014 de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE.).

A JBS já foi fiscalizada diversas vezes com relações de trabalho análogo a escravidão, danos morais coletivos, descumprimento de normas trabalhistas, compra de gado de fazenda inclusa na lista suja do trabalho escravo e da família do maior desmatador da Amazônia (família Castanha).
Mas o que existe por trás dessa aliança entre a Rede Globo e o agronegócio? E qual a relação do presidente interino Michel Temer com isso?
Esse processo de aproximação entre a Rede Globo, considerada um dos veículos “articuladores” do processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff por seus opositores, com o agronegócio, ocorre ao mesmo tempo em que o presidente interino Michel Temer também tenta fortalecer essa relação.

No final de junho passado, o presidente interino sancionou a lei Nº 12.201/16, que permite a pulverização aérea nas cidades do Brasil para “comnbater o Aedes Aegypti”.
Com essa medida, o governo tenta fortalecer o agronegócio, um dos mercados mais lucrativos da economia brasileira — além de um dos principais financiadores de campanha política, com forte presença no Congresso Nacional, através da Bancada Ruralista.
Com o mesmo objetivo, o governo interino nomeou Blairo Maggi para o Ministério da Agricultura, o famoso “rei da soja”. Durante os anos de crescimento do uso de agrotóxico, as empresas do “rei da soja” dispararam seus lucros. Em 2011, todas suas empresas juntas faturaram cerca de U$3,78 bilhões — cerca de 60,8% a mais na comparação com a receita dos três anos anteriores. Mesmo em crise, o mercado ainda favorece positivamente o agronegócio e as empresas do atual ministro interino.

No dia 4 de julho de 2016, em mais uma investida de Temer na área, o presidente interino marcou presença no evento internacional Global Agribusiness Forum 2016, principal encontro do agronegócio mundial, realizado em São Paulo.
Lá, o presidente interino foi fortalecido pelos empresários do agronegócio, após ter sancionado a lei que deve favorecer os lucros dessas empresas. Das mãos da Confederação Nacional da Agricultura, recebeu um manifesto assinado por 45 entidades, afirmando que Temer tem “legitimidade consitucional”, além de contar “com o comprometimento de uma equipe econômica competente”.

Segundo o dossiê Abrasco, cerca de 34.147 notificações de intoxicação pro agrotóxico foram registradas de 2007 a 2014. O período coincide justamente com a porcentagem de aumento do uso de agrotóxicos no Brasil, cerca de 288% entre 2000 e 2012. Só em 2014, a indústria responsável faturou mais de U$12 bilhões no Brasil.
Com a investida em prol do agronegócio pelos meios de comunicação e pelo próprio governo interino, o que parece surgir é uma tentativa de criar uma espécie de “bloco de resistência” contra uma possível reviravolta no processo de impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff.

A Bancada Ruralista conta com uma forte presença no Congresso Nacional — sendo dela o papel articulador da “virada de jogo” contra Dilma no ano passado, tornando possível a aprovação do seu processo de impeachment na Câmara dos Deputados.

 “Agro é Pop, Agro é Tudo”: os donos do poder e a  manipulação da   comunicação

Fonte/Imagem: Conexão Planeta
 28 de junho de 2018.  Giem Guimarães 
Disponível em Conexão Planeta
http://conexaoplaneta.com.br/blog/agro-e-pop-agro-e-tudo-os-donos-do-poder-e-a-manipulacao-da-comunicacao/

As grandes empresas de rádio e televisão são detentoras de concessões públicas para a exploração da comunicação utilizando-se do espectro de radiofrequências – elevado à categoria de bem público (lei 9.472/97). Elas recebem uma delegação do Estado para atender a finalidades e interesses públicos por meio da exploração de tais serviços (artigo 21, da CF/88). Portanto, as regulamentações que organizam suas atividades, trazem, dentre suas obrigações, deveres para com a sociedade.

Infelizmente, a confusão entre o público e o privado no Brasil é gigantesca e histórica, principalmente, nas atividades desempenhadas pelo Estado brasileiro. A fiscalização da coisa pública aqui, como sabemos, é muito precária e repleta de corrupção por todos os lados. No caso das empresas de mídia – traumatizados que somos pela censura – criou-se um “animal estranho”, o CONAR (Conselho Nacional de Auto-regulamentação publicitária), para exercer essa fiscalização. Trata-se de uma entidade privada sem fins lucrativos que não tem nada haver com o poder judiciário.

Cabe ressaltar que, quem escolhe os conselheiros do CONAR são entidades que dependem de gastos publicitários. A maior parte das vagas para o Conselho de Ética do conselho decorre de indicações das entidades fundadoras e associadas a ele, como ABA, Abap, Abert, Aner, ANJ, Central de Outdoor, ABTA, Feneec e IAB Brasil, por exemplo. Talvez seja por isso que, volta e meia, assistimos bestificados às barbaridades que adentram em nossos lares na forma de programas e propagandas que, na verdade, prestam um desserviço à sociedade.
Pode-se dizer que as campanhas massivas e nacionais intituladas “Agro é Tudo”, apoiadas pela Ford e Seara (pertencente ao grupo JBS) na Rede Globo, e a “Nosso Agro”, veiculada na Rede Bandeirantes, são parte desse rol de publicidade ruim. Essas campanhas caríssimas e massivas são um exemplo de tentativa de manipulação da opinião pública em prol de um setor que, em tempos de crise, posiciona-se arrogantemente como “salvador da pátria”.

Do ponto de vista econômico, a atividade agropecuária brasileira tem se destacado pela exportação de carnes e soja. A maior parte da produção destas commodities está concentrada nas mãos de uma pequena parcela da sociedade brasileira, que ocupa o topo da pirâmide. Ela representa um pequeno substrato da população que pode gastar em torno de 150 mil reais em caminhonetes de luxo, tal qual anunciadas nos comerciais das referidas campanhas de conteúdo impreciso.

Segundo uma das propagandas, o “agronegócio brasileiro emprega 19 milhões de pessoas”, o que representaria “20% do total de empregos no país”. Acontece que quem mais emprega no campo é a agricultura familiar, com 11,5 milhões de trabalhadores. Manipulam-se, portanto, os números para demonstrar que o agronegócio é o grande gerador de empregos.
É preciso esclarecer que a “elite ruralista” concentra mais da metade das terras do país, além de contar com enormes benefícios fiscais como perdões de dívidas pelo governo. Esta gente – que hoje divide com a bancada evangélica a hegemonia no reino político de Brasília – gera menos emprego que a agricultura tradicional.
Na verdade, o que se viu na sequência de comerciais – entre um comercial de produto aqui e um dado setorial ali – foi um grande esforço conjunto do agronegócio no Brasil para melhorar sua imagem. Imagem esta desgastada por inúmeros escândalos pouco divulgados pela imprensa, que depende dos investimentos publicitários do agronegócio.
Escândalos que começam com o envolvimento do próprio ministro da agricultura, Blairo Maggi, um dos maiores plantadores de soja do mundo. Denunciado recentemente pela Procuradoria Geral da República por corrupção ativa, o ministro, cujo nome é sinônimo de agronegócio, também já foi investigado por crimes ambientais. É de se perguntar se a nomeação de Maggi por Temer, para o ministério da agricultura, seria legalmente possível em países desenvolvidos. No caso de Maggi, “agro é puro”. Puro conflito de interesses. Colocar a “raposa cuidando das galinhas” não parece ser algo prudente, ainda mais em países como o Brasil. Fizesse Maggi parte de um conselho setorial que pudesse auxiliar o governo, ainda vá. Mas nomeá-lo ministro da agricultura, é como colocar Eike Batista presidindo a Petrobrás.

Outro escândalo, ainda mais relevante é o envolvimento do atual presidente da república e de boa parte dos parlamentares brasileiros com a JBS, grande “doadora” da chapa Dilma-Temer. Em mais de uma ocasião, dada a gravidade das delações, o atual governo veio abaixo, mas foi salvo pela bancada ruralista e outros integrantes Congresso Nacional. A JBS responde por inúmeras irregularidades trabalhistas, tributárias e ambientais. Além de ser protagonista em um dos maiores esquemas de corrupção da história do Brasil e quiçá do mundo.

Não faz muito tempo, outro escândalo de proporções mundiais envolvendo o suborno de fiscais do governo na fiscalização da carne abalou a indústria brasileira e muitas exportações precisaram ser suspensas. Não faltam, portanto, motivos aos senhores do agronegócio para tentarem melhorar a imagem institucional do setor a qualquer custo. Esta melhoria de imagem também pode ser-lhes útil na tentativa de aprovação de novas leis afrouxando ouso de agrotóxicos, hormônios e fertilizantes.

Mas por que os publicitários brasileiros não possuem olhar mais crítico sobre as mensagens inverídicas sobre o agro? Talvez porque, para algumas empresas de comunicação, agro seja realmente tudo. De rentável. Num outro recente episódio, a GM/Chevrolet, propagandeou uma caminhonete, nas palavras do jornalista André Trigueiro, “utilizando um discurso raivoso e beligerante de lideranças do agronegócio contra ambientalistas”. O texto do comercial, de tão agressivo, abala o prestígio da montadora e da agência de propaganda que assina o comercial.

Uma denúncia sobre esta propaganda foi levada ao CONAR, exigindo que o caso fosse analisado por uma comissão interna. A bancada, formada na maioria por pessoas ligadas a empresas de mídia e publicidade, no entanto, não viu problema algum na peça publicitária da GM. Mas basta assistir uma vez o comercial para entender que o conselho errou de maneira grosseira. A propaganda fomenta a discórdia e a animosidade.

Em seu livro “Homo Deus”, Yuval Harari -link para download desse livro em postagem anterior, neste blog - nos conta que antes do agro, a vida em sociedade era mais equilibrada e a escassez de alimentos funcionava como um regulador natural da população. Na verdade, os primeiros Homo sapiens e neandertais caçadores-coletores, conseguiram sobreviver por longevos 20 mil anos dessa maneira. Ainda segundo o autor, a agricultura foi, na verdade, o começo do fim para muitos. Com ela vieram ondas de extinção em massa e a propriedade privada e seus conflitos, que produziram a maior parte das guerras da humanidade.

Não se trata aqui de nenhuma apologia a ideologias retrógadas. Precisamos sim do agronegócio. Esta última reflexão é apenas um olhar científico sobre o verdadeiro significado histórico e antropológico do que realmente é o agro. Por meio de um olhar mais amplo, fica claro que há necessidade de mais equilíbrio no meio publicitário e maior transparência em instituições como o CONAR.
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As verdades inconvenientes que a campanha “Agro Pop”  tenta esconder

por Equipe OBHA | 22, fev, 2017 | + água no feijão | 

Disponível em Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz): 

Texto publicado no site Ideias na Mesa no dia 21/02/17 de autoria do nutricionista Rafael Rioja.
Desde meados de 2016 a Globo passou a exibir no horário nobre de sua programação e com múltiplas entradas a campanha “Agro é Pop, Agro é Tech, Agro é tudo”. Concebida pela gerência de Marketing e Comunicação da própria emissora, os vídeos de 1 minuto continuarão a ser “martelados” nos intervalos das novelas, jornais e programas até junho de 2018.

Segundo os criadores, a campanha têm entre outros objetivos: “tratar a importância dos produtos agrícolas e das coisas do campo; procuramos também sempre citar quantos empregos aquela atividade agrícola gera e quanto ela movimenta na economia”
O Brasil é sem dúvida um país de vocação agrícola fruto de nossa exuberante biodiversidade, e não por outra razão, tivemos em nossas terras desde que os europeus “descobriram” nossos povos indígenas e nossas riquezas naturais, seguidos ciclos de produção capitaneados por diferentes caravanas colonizadoras. Nos dias de hoje, essa riqueza agrícola continua, sem sombra de dúvidas, a movimentar a economia brasileira. 

Mas o que realmente está por trás da campanha “Agro é Pop” e quais as verdades inconvenientes que ela tenta esconder?

Agro é Tech  

A retórica de que o agronegócio gera riquezas e atua no combate a fome não é recente e nem exclusividade brasileira. A “Revolução Verde” iniciada nos Estados Unidos na década de 50, e que de verde mesmo teve só o nome da cor, trouxe a promessa de acabar com a fome no mundo através do uso da tecnologia aumentando a produção de alimentos. Em termos absolutos, a produção de gêneros alimentícios aumentou, mas mesmo décadas depois, problemas como a fome e a insegurança alimentar e nutricional continuam a assolar mais de 800 milhões de pessoas ao redor do mundo.

O grande legado da dita “Revolução Verde” foi na verdade a concentração de grandes porções de terras nas mãos de poucos latifundiários e o escoamento de pacotes tecnológicos e de insumos por multinacionais estrangeiras que incluíam agrotóxicos com princípios ativos excedentes da segunda guerra mundial, fertilizantes químicos e sementes transgênicas destinados a países em desenvolvimento como o Brasil.

Em território nacional, agrotóxicos banidos na União Européia e em outros países no mundo circulam com isenção de impostos e linhas de créditos bancárias para pequenos agricultores condicionadas ao uso dos venenos. Esse cenário levou o Brasil à condição de maior consumidor de agrotóxicos do mundo com sérias implicações para a saúde humana incluindo consumidores e trabalhadores rurais, e para o meio ambiente. A Associação Brasileira de Saúde coletiva (ABRASCO), compilou em 2015 sua versão mais recente do Dossiê: “Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde“, livro com mais de 600 páginas reunindo artigos, estudos e pesquisas mostrando entre outros aspectos, as contaminações pelo uso de agrotóxicos que vão desde o comprometimento de aquíferos locais até a presença de compostos tóxicos no ar e no leite materno.

Além de se destacar no consumo de agrotóxicos, o agronegócio brasileiro também nos colocou no patamar de maiores produtores de milho e soja transgênica ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

Do ponto de vista da segurança para saúde humana do consumo de organismos geneticamente modificados (OGM), a publicação “Lavouras Transgênicas” analidou 750 trabalhos publicados e mostrou que a única certeza é de que não existe consenso científico sobre o consumo seguro deste tipo de alimento. Não resta dúvidas, no entanto, dos sérios agravos para biodiversidade, soberania e segurança alimentar causados pelo monopólio de patentes das multinacionais que controlam a produção de OGM. Recentemente a equipe do IM traduziu matéria alertando que pequenos agricultores da Tanzânia, estão sendo criminalizados por utilizar e trocar sementes nativas ao invés de comprar as sementes transgênicas  da Syngenta. A situação de extrema gravidade não é exclusividade do país Africano e se repete em outras regiões.

O Brasil saiu em 2015 pela primeira vez na história do mapa da fome segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), e essa conquista foi possibilitada não pelo modelo “Agro Tech” sinônimo de agrotóxicos e sementes transgênicas. De acordo com a entidade, os principais fatores que possibilitaram essa conquista foram as políticas de combate a fome e insegurança alimentar e nutricional que resultaram nos programas como o “Fome Zero” e o “Bolsa Família”. As iniciativas de transferência de renda e o fornecimento de uma alimentação adequada e saudável por meio de diferentes ações e programas foram de fundamental importância para esse novo cenário.

O que a campanha do agronegócio esconde atrás do “Tech” é o que ele realmente significa e quem verdadeiramente lucra com as riquezas geradas. Acompanhe a coluna de quinta feira para saber da onde vem a popularidade do “Agro Pop” e por que esse modelo de negócio “Agro(não) é Tudo”.






segunda-feira, 6 de agosto de 2018

FAKE NEWS: CURSO ON-LINE E GRATUITO

site: https://vazafalsiane.com/
facebook: https://www.facebook.com/cursovazafalsiane/

Oi, pessoal!
Que tal aprender um pouco mais sobre Fake News?
O site “Vaza, Falsiane” teve uma iniciativa excelente ao oferecer um curso on-line e gratuito e com o primeiro módulo bem bacana, disponível no site: https://vazafalsiane.com/curso/1-como-saber-se-e-verdade-o-que-ouvi-dizer/#1.6
O curso tem 8 módulos e oferece certificado no final!
Vamos disseminar informações que façam a diferença?

domingo, 5 de agosto de 2018

LEITURAS INTERESSANTES


Ultimamente, a pedido do meu orientador, tenho me dedicado a ler e a escrever sobre a minha dissertação que é voltada para a representatividade de gêneros na mídia, tendo em vista o amorXcapitalismo. 
Tenho tomado gosto pela Psicanálise de forma incomum, assunto sobre o qual me deterei em breve, e de forma substancial, neste blog.
Por agora, não resistindo ao apelo de outras boas leituras, sucumbi a  Sapiens e Homo Deus, além do que após contundente disciplina no IFCH - UNICAMP, com a disciplina sobre o Golpe, tive acesso a Falácias de Moro.
Super indico a quem quer ter acesso a leituras outras que fogem da reprodução de falas do senso comum.
Seguem aqui escritos sobre os autores dos livros, a que os leitores podem ter acesso ao links inseridos nos textos abaixo, para leituras possíveis.
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LEITURAS:
Sapiens e Homo Deus, clique em:  PARA LER EM FORMATO E-BOOK 

Yuval Harari: "Não sabemos o que ensinar aos jovens pela primeira vez na História"


O autor de Sapiens e Homo Deus, Yuval Noah Harari© DR
 FONTE: DIÁRIO DE NOTÍCIAS
João Céu e Silva
27 Maio 2017 — 00:47

O livro anterior de Yuval Harari, Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, foi um sucesso mundial.
Em Portugal, o historiador israelita não passou despercebido e alguns milhares já leram as quatro edições do antecessor de Homo Deus - História Breve do Amanhã (editora Elsinore), o seu mais recente trabalho de investigação lançado seis anos após o primeiro.
Em quase 500 páginas, o professor do departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém faz uma análise da evolução do Homem que se segue e questiona quais poderão ser os passos de gigante dos habitantes da Terra. Uma antevisão pouco agradável, onde a Inteligência Artificial e a biogenética destituirão em breve as regras que gerem as sociedades atuais. Nesta entrevista ao DN, a primeira para Portugal, Yuval Harari explica como os netos dos nossos netos só serão em parte humanos, que será o algoritmo a decidir os empréstimos de um banco, que as reivindicações dos excluídos serão ignoradas e que o que hoje se ensina nas escolas e universidades de pouco servirá dentro de no máximo duas décadas. Não pretende que seja uma perceção catastrófica, antes o resultado da evolução da tecnologia ao nosso dispor no século XXI e que será impossível de travar. Harari tornou-se uma celebridade mundial, gay, vive com o marido numa comunidade israelita, vegan e recusa-se a usar um smarthphone.

Olho para o seu livro e imagino o autor como um drone dotado de inteligência artificial a sobrevoar o planeta Terra. Revê-se nesta imagem?
Até certo ponto. Eu tento ser realmente como um drone que voa a grande altitude e observa tudo o que acontece na Terra sem tomar partidos. No entanto, ao contrário de um drone ou de uma inteligência artificial, eu não me foco apenas nos acontecimentos materiais. Tento compreender como as pessoas se sentem e dou um lugar central no meu livro às questões éticas e filosóficas. Não vale a pena escrever História se nos esquecermos da dimensão ética.

Começa o livro com uma grande pergunta: "Estamos a controlar a fome, as epidemias e a guerra. O que irá substituí-las?" Qual é o seu prognóstico?
No séc. XXI a principal ambição humana não será meramente o controlo da fome, das epidemias e da guerra, mas sim a de transformar os humanos em deuses. E digo isto no sentido literal. Os seres humanos esforçar-se-ão por adquirir capacidades que foram inicialmente pensadas como capacidades divinas. Em particular, a capacidade de manipular e criar vida. Assim como na Bíblia Deus criou animais, plantas e seres humanos de acordo com os seus desejos, também no séc. XXI iremos provavelmente aprender como projetar e fabricar animais e plantas e, até, seres humanos segundo os nosso desejos. Iremos usar a engenharia genética para criar novos tipos de seres orgânicos; usaremos interfaces diretas cérebro-computador com o objetivo de criar ciborgues (seres que combinam partes orgânicas com partes inorgânicas); e podemos até conseguir criar seres completamente inorgânicos. Os principais produtos da economia do séc. XXI não serão têxteis, veículos e armas, mas sim corpos, cérebros e mentes. Foi por isso que dei ao livro o título de Homo Deus (homem-deus).


Ao comentar o estado atual da humanidade diz: "Vejamos o que o dia de hoje nos reserva". Esta é uma questão para o mundo inteiro ou apenas para os menos afortunados?

Em 2010, a fome e a desnutrição combinadas mataram cerca de um milhão de pessoas, enquanto a obesidade matou três milhões
Ainda há milhares de milhões de pessoas pobres no mundo que sofrem de desnutrição e doenças, mas as fomes em massa estão a tornar-se raras. No passado, de tantos em tantos anos havia secas ou inundações, ou outro tipo qualquer de catástrofe natural, a produção de alimentos caía a pique e milhões de pessoas morriam à fome. Atualmente, a humanidade produz tanta comida e consegue transportá-la tão rapidamente e de forma tão barata que os desastres naturais nunca resultam, por si próprios, em fome em massa. Já não existe fome natural no mundo, há apenas fome de origem política. Se as pessoas ainda morrem de fome na Síria, no Sudão ou na Coreia do Norte é apenas porque alguns governos assim o desejam.
Vejamos a China, por exemplo. Há poucas décadas a China era ainda um paradigma de escassez de alimentos. Dezenas de milhões de chineses morreram de fome durante o Grande Salto em Frente e os especialistas previam rotineiramente que o problema só iria piorar. Em 1974 teve lugar em Roma a primeira Conferência Mundial da Alimentação e os delegados foram presentados com cenários apocalíticos. Foi-lhes dito que a China nunca conseguiria alimentar os seus mil milhões de pessoas e que o país mais populoso do mundo estava a caminho da catástrofe. Na verdade estava a caminho do maior milagre económico da história. Desde 1974 centenas de milhões de chineses saíram da pobreza e apesar de haver ainda centenas de milhões que sofrem muitíssimo de privações e desnutrição, a China está pela primeira vez nos seus registos históricos livre da fome.
De facto, na maioria dos países, hoje, comer demais tornou-se um problema muito pior do que a fome. No século XVIII, Maria Antonieta supostamente aconselhou as massas famintas a que, se ficassem sem pão, comessem bolos. Hoje, os pobres seguem este conselho à letra. Enquanto os habitantes ricos de Beverly Hills comem salada de alface e tofu cozido a vapor com quinoa, nos bairros da lata e guetos os pobres engolem bolos industriais, pacotes de aperitivos salgados, hambúrgueres e pizzas. Em 2014, mais de 2100 milhões de pessoas tinham excesso de peso, contra 850 milhões que sofriam de desnutrição. Calcula-se que em 2030 metade da humanidade sofra de excesso de peso. Em 2010, a fome e a desnutrição combinadas mataram cerca de um milhão de pessoas, enquanto a obesidade matou três milhões.


Afirma que as guerras estão a diminuir. Quando vê o Presidente Trump atirar uma super-bomba sobre o Afeganistão sente vontade de alterar o texto do livro?

Eu não disse que as guerras iriam inevitavelmente desaparecer. O que eu disse foi que nós transformámos as guerras de uma catástrofe inevitável além do controlo humano numa ameaça gerível. No passado, os seres humanos pensavam que as guerras eram uma parte natural do mundo e somente Deus poderia trazer a paz à Terra. Mas ao longo das últimas décadas, os seres humanos descobriram que têm o poder de trazer a paz à Terra por si mesmos, se tomarem as decisões certas.
Ainda há guerras em algumas partes do mundo, eu vivo em Israel por isso sei muito bem disso. Mas grandes partes do mundo estão completamente livres da guerra e muitos estados deixaram de usar a guerra como um instrumento padrão para promover os seus interesses. Nas sociedades agrícolas antigas, cerca de 15% de todas as mortes eram causadas pela violência humana. Hoje, em todo o mundo, as mortes causadas pela violência humana são menos de 1,5%. De facto, o número de suicídios é hoje maior do que o número de mortes violentas! São maiores as hipóteses de se morrer por suicídio do que de se ser morto por um qualquer soldado inimigo, um terrorista ou um criminoso. Da mesma forma, o número de pessoas que morrem por obesidade e doenças relacionadas é muito mais elevado do que o número de pessoas mortas por violência humana. O açúcar é hoje mais perigoso do que a pólvora.
O que originou esta nova era de paz? Existem duas causas principais. Em primeiro lugar, as armas nucleares transformaram a guerra entre superpotências em suicídio coletivo. Assim, as superpotências tiveram que mudar completamente o sistema internacional e encontrar maneiras de resolver conflitos sem grandes guerras. Em segundo lugar, as mudanças económicas transformaram o conhecimento no principal ativo económico. Anteriormente, a riqueza era principalmente riqueza material: campos de trigo, minas de ouro, escravos, gado. Isso encorajava a guerra, porque era relativamente fácil conquistar riqueza material através da guerra. Hoje, a riqueza está cada vez mais baseada no conhecimento. E não se pode conquistar o conhecimento através da guerra. Não se pode, por exemplo, conquistar a riqueza de Silicon Valley através da guerra, porque não há minas de silício no Vale do Silício - a riqueza vem do conhecimento dos engenheiros e técnicos. Consequentemente, hoje, a maioria das guerras está restrita àquelas partes do mundo - como o Médio Oriente - onde a riqueza é a riqueza material antiquada (principalmente campos de petróleo).


Foi fácil integrar a afirmação constante do terrorismo neste seu exame?

O terrorismo é em grande parte teatro. Os terroristas encenam um espetáculo de violência aterrorizador que domina a nossa imaginação e nos faz sentir como se estivéssemos a resvalar de novo para o caos medieval. Consequentemente os estados sentem-se muitas vezes obrigados a reagir ao teatro do terrorismo com um espetáculo de segurança, orquestrando enormes exibições de força, como a perseguição de populações inteiras ou a invasão de países estrangeiros. Na maior parte dos casos, essa reação exagerada ao terrorismo representa uma ameaça muito maior à nossa segurança do que os próprios terroristas.
Os terroristas são como uma mosca que tenta destruir uma loja de porcelanas. A mosca é tão fraca que não consegue mover nem uma chávena de chá. Assim, encontra um touro, entra para dentro do seu ouvido e começa a zumbir. O touro fica louco de medo e fúria e destrói a loja de porcelanas. Foi o que aconteceu no Médio Oriente na última década. Os fundamentalistas islâmicos nunca conseguiriam ter derrubado Saddam Hussein sozinhos. Em vez disso, eles enfureceram os EUA com os atentados de 11 de setembro e os EUA destruíram a loja de porcelanas do Médio Oriente por eles. Agora eles florescem nos destroços. Portanto, na verdade, o sucesso ou o fracasso do terrorismo dependem de nós. Se permitirmos que os terroristas dominem a nossa imaginação e, depois, reagirmos exageradamente aos nossos próprios medos, o terrorismo terá êxito. Se libertarmos a nossa imaginação dos terroristas e reagirmos de forma equilibrada e calma, o terrorismo fracassará.
No subcapítulo O Direito à Felicidade considera que este é o segundo grande projeto na agenda da humanidade. Mas, como dizia Epicuro, esta busca não continua a conduzir à infelicidade?
Sim, até agora a busca da humanidade pela felicidade não foi muito bem-sucedida. Nós somos hoje muito mais poderosos do que alguma vez fomos e a nossa vida é certamente mais confortável do que no passado, mas é duvidoso que sejamos muito mais felizes do que os nossos antepassados. Os americanos médios têm um carro, um telemóvel, um frigorífico cheio de comida e um armário cheio de medicamentos, coisas com que os seus antepassados dificilmente poderiam sonhar. No entanto, os americanos estão tão irritados e insatisfeitos com a sua situação, que elegeram Donald Trump como seu presidente. Aparentemente, não é fácil traduzir o poder em felicidade.
Uma explicação é que a felicidade depende menos de condições objetivas e mais das nossas próprias expectativas. As expectativas, no entanto, tendem a adaptar-se às condições. Quando as coisas melhoram, as expectativas aumentam e, consequentemente, mesmo melhorias drásticas nas condições podem deixar-nos tão insatisfeitos como antes.
Ainda teremos netos, mas não tenho muita certeza de que os nossos netos terão netos. Pelo menos não humanos
Eu valorizo muito Marx. Até certo ponto, todos nós somos marxistas hoje. Podemos não aceitar o programa político de Marx, mas mesmo os capitalistas mais radicais analisam a história e a política usando o pensamento marxista. Por exemplo, quando tentamos entender a ascensão de Donald Trump, geralmente pensamos que as mudanças económicas, como a crescente desigualdade entre a classe operária americana e a classe alta, levam a convulsões políticas. Essa é uma análise marxista.
No entanto, no séc. XXI as teorias marxistas estão a perder relevância. O marxismo assume que a classe trabalhadora é vital para a economia e os pensadores marxistas tentaram ensinar ao proletariado como traduzir o seu imenso poder económico em força política. Esses ensinamentos podem tornar-se completamente irrelevantes no séc. XXI, pois a IA e os robôs substituem os seres humanos em mais e mais empregos e as massas perdem o seu valor económico. Na verdade, pode haver quem argumente que o brexit e Trump já demonstram uma trajetória oposta à que Marx imaginava. Em 2016, os britânicos e os americanos que perderam a sua utilidade económica, mas que ainda conservam o poder político, usaram esse poder para se revoltarem antes que seja tarde demais. Eles não se revoltam contra uma elite económica que os explora, mas contra uma elite económica que já não precisa deles.


Preocupa-o a certeza de que nos vamos confrontar em breve com uma raça de super-homens, o seu Homo Deus?

Sim, existe o perigo de a humanidade se dividir em castas biológicas. À medida que a biotecnologia se for desenvolvendo será possível prolongar o tempo da vida humana e melhorar as capacidades humanas, mas os novos tratamentos maravilha podem ser caros e podem não estar disponíveis gratuitamente para todos os milhares de milhões de seres humanos. Assim, a sociedade humana no séc. XXI pode ser a mais desigual da História. Pela primeira vez na História, a desigualdade económica será traduzida em desigualdade biológica. Pela primeira vez na História, as classes superiores não serão apenas mais ricas do que o resto da humanidade, mas também viverão muito mais tempo e terão muito mais talento.
A ascensão da inteligência artificial pode exacerbar este problema. Dentro de algumas décadas, a IA pode tornar a maioria de seres humanos inúteis. Estamos agora a desenvolver software para computadores e IA que superam os seres humanos em cada vez mais tarefas, desde conduzir carros até diagnosticar doenças. Como resultado, os especialistas calculam que dentro de algumas décadas, não serão só os empregos de taxistas e médicos, mas cerca de 50% de todos os postos de trabalho nas economias avançadas serão ocupados por computadores.
Podem aparecer muitos novos tipos de empregos, mas isso não irá necessariamente resolver o problema. Os seres humanos têm basicamente apenas dois tipos de capacidades - físicas e cognitivas - e se os computadores nos superarem em ambas, eles podem superar-nos nos novos empregos tal como o fizeram nos antigos. Então, qual será a utilidade de seres humanos nesse mundo? O que faremos com milhares de milhões de seres humanos economicamente inúteis? Não sabemos. Não temos qualquer modelo económico para tal situação. Esta pode ser a maior questão económica e política do século XXI.
Além disso, à medida que os algoritmos expulsam os seres humanos do mercado de trabalho, a riqueza pode concentrar-se nas mãos da pequena elite que possui os algoritmos todo-poderosos, criando desigualdades sociais e políticas sem precedentes. Hoje, milhões de motoristas de táxi, de autocarros e de camiões têm um peso económico e político significativo, cada um comandando uma pequena parcela do mercado de transportes. Se o governo faz alguma coisa de que não gostem, eles podem sindicalizar-se e entrar em greve. No futuro, todo esse poder económico e político pode ser monopolizado por alguns bilionários que possuem as empresas que detêm os algoritmos que dirigem todos os veículos.
O Homo sapiens foi apenas mais uma etapa da evolução do Homem e deixou de ser a referência?
Nós somos provavelmente uma das últimas gerações de Homo sapiens. Ainda teremos netos, mas não tenho muita certeza de que os nossos netos terão netos. Pelo menos não humanos. No próximo século ou dois, os seres humanos ou se destroem a eles mesmos ou evoluem para algo completamente diferente. Algo que será mais diferente de nós do que nós somos diferentes dos neandertais ou dos chimpanzés.
[citacao O algoritmo discrimina-o não porque você é mulher ou homossexual ou negro, mas porque você é você. Há algo específico sobre si de que o algoritmo não gosta]
Elege o algoritmo como um fator de discriminação. Como podem os mais fracos defenderem-se?
Ao reunir dados e poder de computação suficientes, empresas e governos poderão criar rapidamente algoritmos que me conhecem melhor do que eu próprio, e então a autoridade deslocar-se-á de mim para o algoritmo. O algoritmo poderá entender os meus desejos, prever as minhas decisões e fazer melhores escolhas em meu nome. Tais algoritmos contêm um grande potencial, mas também um grande perigo. À medida que os algoritmos nos começam a conhecer tão bem, os governos ditatoriais poderão obter um controlo absoluto sobre os seus cidadãos, ainda mais do que na Alemanha nazi, e a resistência a tais ditaduras poderá ser totalmente impossível. Mesmo em países democráticos, as pessoas podem tornar-se vítimas de novos tipos de opressão e discriminação. Hoje em dia, cada vez mais bancos, empresas e instituições estão a usar algoritmos para analisar dados e tomar decisões sobre nós. Quando pedimos um empréstimo a um banco é mais provável que o nosso pedido seja processado por um algoritmo de que por um ser humano. O algoritmo analisa muitos dados sobre nós e estatísticas sobre milhões de outras pessoas, e decide se somos suficientemente confiáveis para nos conceder um empréstimo. Muitas vezes, o algoritmo faz um trabalho melhor do que um banqueiro humano. Mas o problema é que, se o algoritmo discriminar algumas pessoas injustamente, é difícil saber isso. Se o banco se recusar a dar-nos um empréstimo e perguntarmos "porque não?", o banco responde "o algoritmo disse que não". Se perguntarmos "por que motivo o algoritmo disse que não?", o banco responde, "Nós não sabemos. Nenhum ser humano entende este algoritmo, porque é baseado na aprendizagem avançada da máquina. Mas nós confiamos no nosso algoritmo, por isso não lhe concederemos um empréstimo".
No passado, as pessoas discriminavam grupos inteiros como mulheres, homossexuais e negros. Assim, as mulheres, os homossexuais ou os negros, podiam organizar-se e protestar contra a sua discriminação coletiva. Mas agora o algoritmo pode discriminá-lo a si, e você não faz ideia da razão. Talvez o algoritmo tenha encontrado alguma coisa no seu ADN ou na sua história pessoal que não lhe agrada. O algoritmo discrimina-o não porque você é mulher ou homossexual ou negro, mas porque você é você. Há algo específico sobre si de que o algoritmo não gosta. Você não sabe o que é, e mesmo que soubesse, não se pode organizar com outras pessoas para protestar, porque não há outras pessoas. É apenas você. Em vez da discriminação coletiva como no século XX, talvez no século XXI tenhamos um grande problema de discriminação individual.


Quando aponta o Dataísmo como a próxima religião não está a ir longe de mais? Falando de religião, esta tem um prazo de validade?

Primeiro, devemos entender o que é a religião. A religião não é a crença em deuses. Em vez disso, a religião é qualquer sistema de normas e valores humanos que se baseia na crença em leis sobre-humanas. A religião diz-nos que devemos obedecer a certas leis que não foram inventadas pelos seres humanos e que os seres humanos não podem mudar à sua vontade. Algumas religiões, como o islão, o cristianismo e o hinduísmo, acreditam que essas leis sobre-humanas foram criadas pelos deuses. Outras religiões, como o budismo, o capitalismo e o nazismo, acreditam que essas leis sobre-humanas são leis naturais. Assim, os budistas acreditam nas leis naturais do carma, os nazis argumentaram que a sua ideologia refletia as leis da seleção natural, e os capitalistas acreditam que seguem as leis naturais da economia.
Não importa se acreditam em leis divinas ou em leis naturais, todas as religiões têm exatamente a mesma função: dar legitimidade às normas e valores humanos e dar estabilidade às instituições humanas, como estados e empresas. Sem algum tipo de religião é simplesmente impossível manter a ordem social. Durante a era moderna, as religiões que acreditam nas leis divinas entraram em declínio. Mas as religiões que acreditam nas leis naturais tornaram-se cada vez mais poderosas. No futuro, é provável que se tornem mais poderosos ainda. Silicon Valley, por exemplo, é hoje uma incubadora de novas tecno-religiões. Eles prometem todos os velhos prémios religiosos - felicidade, paz, prosperidade e vida eterna - mas aqui na terra com a ajuda da tecnologia e não depois da morte com a ajuda de seres sobrenaturais.


O seu livro anterior foi amplamente reconhecido. Alguém aprendeu a lição?

Não estou certo de que o objetivo do estudo da História seja aprender lições práticas. Na minha opinião, devemos estudar a História não para aprender com o passado, mas para nos libertarmos dele. Cada um de nós nasce num mundo particular, governado por um sistema particular de normas e valores, e uma determinada ordem económica e política. Como nascemos nele, tomamos a realidade circundante como natural e inevitável, e tendemos a pensar que a maneira como as pessoas hoje vivem as suas vidas é a única possível. Raramente nos damos conta de que o mundo que conhecemos é o resultado acidental de acontecimentos históricos aleatórios que condicionam não só a nossa tecnologia, política e economia, mas até mesmo a maneira como pensamos e sonhamos. É assim que o passado nos agarra pela parte de trás da cabeça, e vira o nosso olhar para um único futuro possível. Sentimos o aperto do passado desde que nascemos, por isso nem sequer nos apercebemos dele. O estudo da História visa reduzir esse aperto e permitir-nos virar a nossa cabeça mais livremente, pensar de maneira diferente e ver muitos mais futuros possíveis.
Se não conhecermos a História, facilmente confundimos os seus acidentes com a nossa verdadeira essência. Por exemplo, pensamos em nós mesmos como pertencendo a uma determinada nação, como Israel ou a Coreia; acreditamos numa certa religião; vemo-nos como indivíduos; acreditamos que temos certos direitos naturais. Então, quando me pergunto "quem sou eu?" posso responder que "sou israelita, sou judeu e sou um indivíduo que tem direitos inalienáveis ??à vida, à liberdade e à busca da felicidade".
No entanto, o nacionalismo, o individualismo, os direitos humanos e a maioria das religiões são desenvolvimentos recentes. Antes do séc. XVIII, o nacionalismo era uma força bastante fraca, e a maioria das nações de hoje não tem mais de um século de existência. O indivíduo foi criado pelo estado e pelo mercado modernos, na sua luta para quebrar o poder das famílias e comunidades tradicionais. Os direitos humanos são uma história inventada nos últimos três séculos, que não tem base na biologia. Não há direitos inscritos no nosso ADN. A maioria das religiões que conhecemos hoje nasceu apenas nos últimos dois ou três mil anos e sofreu profundas mudanças nos últimos séculos. O judaísmo ou o cristianismo de hoje são muito diferentes do que eram há 2000 anos. Não são verdades eternas, mas criações humanas. Algumas dessas criações podem ter sido muito benéficas, é claro, mas para conhecer a verdade sobre nós mesmos precisamos ir além de todas essas criações humanas. É por isso que a História me interessa tanto. Eu quero conhecer a História, para poder ir além dela e entender a verdade que não é o resultado de acontecimentos históricos aleatórios.


É sempre referido como um historiador israelita. Porquê sempre a qualificação da nacionalidade?

Eu não me classifico como "um historiador israelita". Eu não acho que a nacionalidade seja assim tão importante. Acho mesmo que os meus antecedentes judaicos têm muito menos influência na minha visão da História do que se poderia esperar. Eu sou judeu por etnia, mas não na minha religião e na minha visão do mundo. Sou muito mais influenciado por Buda e Darwin do que pela Bíblia. É claro que as minhas experiências como israelita moldaram a minha vida e a minha compreensão do mundo até certo ponto. O mundo parece diferente visto de Jerusalém, de Nova Iorque ou de Pequim, e se eu tivesse crescido em Nova Iorque ou Pequim, provavelmente teria escrito um livro diferente. Em particular, porque vivo no Médio Oriente, com todos os conflitos nacionalistas e religiosos, estou muito consciente do imenso poder das histórias imaginárias para controlar as nossas vidas. As pessoas estão a matar-se por todo o lado por puras ficções. É por isso que é tão importante para mim distinguir a realidade da ficção.


"Homo Deus" resulta de uma investigação complexa. Foi confrontado com caminhos sem saída?


O meu objetivo principal ao escrever Homo Deus não era profetizar o futuro, mas sim questionar o nosso futuro e explorar várias possibilidades. O livro foca-se na interação entre tecnologia, política, sociedade e religião. O que acontecerá com a política quando os algoritmos Big Data conhecerem os nossos desejos e opiniões melhor do que nós próprios os conhecemos? O que acontecerá com o mercado de trabalho quando os computadores superarem os seres humanos em cada vez mais tarefas, e a inteligência artificial substituir taxistas, médicos, professores e polícias? O que faremos com milhares de milhões de pessoas economicamente inúteis? Como irão lidar religiões como o cristianismo e o islão com a engenharia genética e o potencial de criar super-humanos e superar a velhice e a morte? Irá Silicon Valley acabar por produzir novas religiões, em vez de apenas novos gadgets?

Ao tentar responder a essas perguntas encontrei obviamente muitos becos sem saída. Ninguém sabe realmente como será o mundo dentro de 30 ou 60 anos. Na verdade, acho que a nossa capacidade de entender o mundo é hoje menor do que nunca. No passado, o conhecimento humano aumentava lentamente e a tecnologia demorava tempo a ser desenvolvida, de modo que a política e a economia também mudavam a um ritmo lento. Hoje, o nosso conhecimento está a aumentar a uma velocidade vertiginosa e, teoricamente, deveríamos entender o mundo cada vez melhor. Mas está a acontecer precisamente o contrário. Os nossos conhecimentos recém-adquiridos levam a mudanças económicas, sociais e políticas mais rápidas. Na tentativa de entender o que está a acontecer, aceleramos a acumulação de conhecimento, o que leva apenas a agitações mais rápidas e maiores. Consequentemente, estamos cada vez menos aptos a dar sentido ao presente ou a prever o futuro. Ninguém sabe realmente o que está a acontecer hoje no mundo, ou onde estaremos no futuro.
Há mil anos, em 1017, havia muitas coisas que as pessoas não sabiam sobre o futuro, mas podiam ter certeza sobre as características básicas da sociedade humana. Se você vivesse na Europa em 1017 sabia que em 1050 os Vikings poderiam invadir novamente, as dinastias poderiam cair e as pestes ou terramotos poderiam matar milhões. No entanto, era claro para si que mesmo em 1050 a maioria dos europeus ainda trabalharia na agricultura, os homens ainda dominariam as mulheres, a expectativa de vida seria de cerca de 40 anos e o corpo humano seria exatamente o mesmo. Hoje, pelo contrário, não fazemos ideia de como a Europa ou o resto do mundo vai ser em 2050. Não sabemos o que as pessoas farão como trabalho, não sabemos como serão as relações de género, as pessoas poderão viver muito mais do que hoje e o próprio corpo humano pode sofrer uma revolução sem precedentes graças à bioengenharia e a interfaces diretas entre cérebro e computador.
Consequentemente, pela primeira vez na história, não fazemos ideia do que ensinar às crianças na escola ou aos estudantes na faculdade. Em 1017, os pais ensinaram aos seus filhos como plantar trigo, como tecer lã, ou como ler a Bíblia e era óbvio que essas capacidades ainda seriam necessárias em 1050. Pelo contrário, a maior parte do que as crianças aprendem hoje na escola será irrelevante em 2050.
Sabemos que tecnologias como a IA e a bioengenharia mudarão o mundo, mas não temos certeza de como o farão, porque a tecnologia nunca é determinista. Podemos usar os mesmos avanços tecnológicos para criar tipos muito diferentes de sociedades e situações. Por exemplo, no séc. XX, as pessoas podiam usar a tecnologia da Revolução Industrial - comboios, eletricidade, rádio, telefone - para criar ditaduras comunistas, regimes fascistas ou democracias liberais. Basta pensar na Coreia do Sul e na Coreia do Norte: os dois países tiveram acesso exatamente à mesma tecnologia, mas eles optaram por empregá-la de maneiras muito diferentes.
No séc. XXI, a ascensão da IA ??e da biotecnologia irá certamente transformar o mundo, mas isso não implica um resultado determinista único. Podemos usá-las para criar tipos muito diferentes de sociedades. Como usá-las sabiamente é a questão mais importante que a humanidade enfrenta atualmente. É muito mais importante do que a crise económica mundial, as guerras no Médio Oriente ou a crise dos refugiados na Europa. O futuro, não só da humanidade, mas provavelmente da própria vida, depende de como escolhemos usar a IA e a biotecnologia.
Para dar um exemplo, consideremos o que a biotecnologia pode significar para a criação de animais. Atualmente, os seres humanos tratam os animais de criação, como vacas, porcos e galinhas, como se fossem apenas máquinas para a produção de carne, leite e ovos. Nós infligimos um sofrimento tremendo a biliões de seres sensíveis, que conseguem sentir dor, medo e solidão. Os avanços na biotecnologia dão-nos agora uma escolha. Por um lado, podemos usar a biotecnologia para criar vacas, porcos e galinhas que crescem mais rapidamente e produzem mais carne, sem pensar no sofrimento que infligimos a esses animais. Por outro lado, poderíamos usar a biotecnologia para criar o que é conhecido como "agricultura celular" ou "carne limpa" - carne que é produzida em laboratórios a partir de células animais, sem necessidade de criar e abater criaturas inteiras. Se quisermos um bife, poderemos limitar-nos a produzir um bife, em vez de criar e abater uma vaca inteira. Isso não é ficção científica. O primeiro "hambúrguer limpo" foi produzido em 2013. É verdade que custou 330 000 dólares, mas, hoje, produzir um hambúrguer desses custa apenas 11 dólares, e dentro de alguns anos é provável que custe menos do que um hambúrguer de "carne abatida". Com a investigação e o investimento certos, dentro de uma década ou duas poderíamos produzir carne limpa em escala industrial, que será mais barata, mais ecológica e mais ética do que criar vacas. A escolha depende de nós.

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OUTRA LEITURA IMPRESCINDÍVEL NA CONJUNTURA ATUAL
Falácias de Moro: entre paralogismos e sofismas




Está para ser lançado o livro “Falácias de Moro: Análise Lógica da Sentença Condenatória de Luiz Inácio Lula da Silva”, de autoria de Euclides Mance, filósofo, professor de Filosofia do Método Científico e de Lógica, ex-docente da Universidade Federal do Paraná e atualmente integrante da coordenação geral do Instituto de Filosofia da Libertação.

O livro, com 276 páginas, será lançado nos próximos dias pela Editora IFIBE, e já está disponível para acesso em

A Lógica é a ciência que estuda a relação de consequência entre proposições, respondendo, assim também, por teorias da argumentação correta nos domínios
da linguagem comum e científica. Ciências particulares terão seus conceitos próprios e regras para seus empregos adequados; mas, assim como seus cálculos têm de ser feitos com as regras da aritmética, seus argumentos precisam espelhar relações de consequência válidas, caso contrário serão apenas  instrumentos de uma retórica carente de racionalidade.  Uma sentença jurídica, que pretenda ser justa, não pode ignorar, assim, os requisitos da inferência válida e correta,  seja ela de natureza abdutiva, indutiva ou dedutiva.

Em seu livro, o Prof. Mance apresenta uma análise lógica, bem feita, sobre raciocínios e argumentos utilizados pelo juiz Sérgio Moro no corpo da sentença por ele emitida, relativa ao processo em que o ex-Presidente Lula figura como réu, no caso do apartamento triplex do Guarujá. O filósofo estuda, detalhadamente, a longa sentença - que pretende  provar a culpa do réu e justificar sua condenação - mostrando que o emprego de diversas inferências falaciosas desqualifica as conclusões obtidas.
Nas Considerações Iniciais, o autor, de forma didática, apresenta a definição do conceito de falácia - erro de raciocínio, argumento sem  garantia formal de que a conclusão decorre das premissas; e apresenta algumas noções lógicas básicas, como a de condicional e bicondicional, discutindo quando uma condição é necessária, quando é suficiente, e quando é necessária e suficiente. O domínio do significado destas noções, entre outras, é fundamental, para quem pretende derivar corretamente conclusões a partir de hipóteses ou de premissas verdadeiras.

Mance lembra ainda que, quando cometida de forma involuntária, a falácia se classifica como ‘paralogismo’, mas quando implantada de forma proposital em um raciocínio, visando confundir o interlocutor, é dita um ‘sofisma’. Os sofistas eram professores e intelectuais itinerantes que frequentavam Atenas e outras cidades gregas na segunda metade do quinto século a.C., ensinando a arte de influenciar pessoas através da persuasão retórica. A partir daí, há 25 séculos, sofismar tem sido entendido como procurar influenciar cidadãos, na política e em outras áreas, através de persuasão enganosa.

Na sequência, o livro se divide em duas partes. Na primeira parte, são discutidos
dez trechos da sentença condenatória, onde o autor encontra, e analisa com propriedade, falácias de vários tipos: Apelo à Crença Comum; Circularidade; Argumentum ad Hominem; Non Sequitur; Apelo à Presciência, ou Falácia dos Mundos Possíveis; Apelo à Possibilidade; Equivocação; Inversão do Ônus da Prova. 

Na segunda parte, o filósofo aprofunda sua análise sobre as implicações das falácias discutidas e sobre como elas se articulam na argumentação do juiz para justificar a condenação.

Professores universitários e pesquisadores na área de Lógica, decidimos manifestar publicamente nosso apoio e concordância com a análise e conclusões do colega Euclides Mance. Com efeito, estamos convencidos de que Mance demonstra, com perspicácia e competência, que o juiz Sérgio Moro incorreu em inúmeros erros lógicos no conjunto de raciocínios e argumentações, cometeu equívocos em aplicações de regras de inferência lógica, além de ter várias vezes assumido hipóteses e premissas sem critério de veracidade. Em suma, a sentença do juiz nos surpreende e nos assombra, enquanto profissionais, com a série de argumentos inaceitáveis que apresenta.

É na condição de membros da comunidade de uma área do conhecimento em que o Brasil se destaca no cenário acadêmico internacional que acreditamos ser dever nosso, como cidadãos e profissionais, contribuir com a Justiça de nosso país, visando prevenir que quaisquer réus venham a sofrer condenações injustas, baseadas em conclusões de argumentos, cuja fragilidade, fartamente denunciada desde a antiguidade grega, é amplamente conhecida.



Abílio Rodrigues Filho
Doutor em Filosofia, UFMG
Professor de Lógica, Departamento de Filosofia, UFMG

Adolfo Gustavo Serra Seca Neto
Doutor em Ciência da Computação, USP
Professor Associado, Departamento Acadêmico de Informática, UTFPR

Alexandre Costa-Leite
Doutor em Filosofia, Université de Neuchâtel, Suíça
Professor Adjunto de Lógica e Filosofia, UnB

Alexandre Noronha
Doutor em Filosofia, UFRGS
Professor Adjunto, Departamento de Filosofia, UFPR

André Leclerc
Doutor em Filosofia, Universidade do Quebec, Canadá
Professor Associado, Departamento de Filosofia, UnB
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Para quem quer se inteirar  da Análise de Discurso:

“Cristiane explicita seu interesse em compreender a ordem do discurso digital. Busca o entendimento de como o simbólico, na relação com o político, determina sentidos e também sujeitos. E o faz pela questão que investe em responder: como o digital significa. Este é o real, esta é a “ordem”. Considero este um dos pontos altos deste livro de Cristiane e de seu trabalho, em geral; ela não estaciona na observação e descrição da organização dos discursos. Isso seria mais uma taxonomia. Ela vai mais longe, lutando pela sua compreensão: visa a ordem do discurso digital. Desmistificação da “naturalização” dos sistemas lógicos digitais (como apps de smartphones, como o Tinder, Bumble, ou facebook, tuíter, googlemaps, etc) em seu funcionamento em nosso cotidiano.  Fica dito de maneira forte que o digital produz um novo tipo de relação entre o sujeito e o social, uma nova relação das práticas políticas e discursivas. Sua compreensão passa pela sobredeterminação do político ao econômico, ao consumo, ao mercado de dados. Resta avaliar, quantos são capazes dessa compreensão. Daí o meu entusiasmo por uma reflexão funda como a de Cristiane que dá um passo fundamental tanto para a teoria do discurso como para a compreensão maior da tecnologia digital. Mesmo se resta sempre o desafio: o passo teórico foi dado.”   Eni Puccinelli Orlandi - precursora da AD no Brasil
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Para quem está em sala de aula ou para quem busca se atualizar:

http://ponteseditores.com.br/loja/index.php?route=product/product&product_id=718

"
“Olhares sobre tecnologias digitais” é uma coletânea de quinze artigos retratando um panorama de pesquisa produzida em diferentes regiões do Brasil. Em perspectivas das mais diversas, a coletânea descortina estudos voltados para a questão da tecnologia e da linguagem. Os trabalhos procuram evidenciar os efeitos sociais e educacionais da tecnologia digital na sociedade contemporânea." 
Por Rosana Cristina Gimael em: 

http://seer.ufal.br/index.php/debateseducacao/article/view/4036/pdf




quinta-feira, 26 de abril de 2018

APURANDO REFLEXÕES




Por que a política perdeu (ou se perdeu) 
Foi nos escombros da ética pública que o estrelato judicial fincou seus alicerces 
EUGÊNIO BUCCI* 
O Estado de S.Paulo 26 Abril 2018 | 03h00 

Chavão da temporada, a lamúria de que o Poder Judiciário tomou as rédeas do País vai se alastrando, unindo vozes que até outro dia eram antípodas. Em seu coro inesperado, dizem que, diante da inoperância do Executivo e da lerdeza mal-intencionada do Legislativo, estaríamos enveredando por um caminho de, no palavreado da moda, “judicializar” a política. 

O chavão não é de todo despropositado. Não faltam sintomas para confirmá-lo. No Brasil não é apenas a política que foi judicializada. Judicializou-se o mundo, o outro mundo e não se parou por aí. Os magistrados do Supremo Tribunal fazem e desfazem, mandam e desmandam. Ninguém tem mais poder do que eles. Como já estamos cansados de verificar, a Constituição não é apenas interpretada e distorcida, é reescrita indefinidamente segundo indecifráveis hermenêuticas de cada um dos superpoderosos ministros do STF. Quando não podem mudar o texto constitucional, mudam o dicionário, de tal sorte que um vocábulo que até então tinha um significado pacificamente conhecido pelos falantes do idioma passa a querer dizer o oposto. 

Não, não é exagero. Quando Dilma Rousseff sofreu seu controverso impeachment, em 2016, a preposição “com” se converteu na preposição “sem”. Mais precisamente, o artigo 52, que para esses casos prescreve “perda do cargo, com inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública”, amparou a decisão de extravagante de “perda do cargo sem inabilitação”. O episódio foi uma espécie de Rubicão semântico na jurisprudência pátria, embora a arte de fazer a lei significar o seu contrário não tenha começado ali. 

Mais recentemente, com a apoteose da Lava Jato, que deu outra envergadura ao instituto nacional do “teje preso”, o chavão ganhou mais poder de convencimento. Para resolver os impasses criados por uma política sem escrúpulos a toga se viu cada vez mais convocada, flanando na tela da TV como a última esperança da gente brasileira. Também por isso (mas não só), num país onde ninguém sabe dizer o nome de meia dúzia de ministros do governo federal – que são trocados em turnos de 24 ou 36 horas, como se fossem motoristas de carros oficiais –, todo mundo sabe de cor a escalação do Supremo. Os juízes da Corte viraram celebridades que rivalizam com apresentadores de programas de auditório – o que é a disfunção mais doentia entre as mais doentias disfunções que estão por aí. 

Tudo isso para dizer que o chavão de que a política foi judicializada tem seu fundamento. Todavia, sendo um chavão, esconde atrás de si problemas mais graves do que o que aponta. Ao jogar os holofotes sobre o – usemos o palavrão – “protagonismo” do Judiciário, faz parecer que nossos males decorrem da desinibição crônica dos ministros do Supremo, mas esconde o fato de que o espaço agora ocupado pelos magistrados cintilantes foi aberto não por eles – como também não foi aberto pela mediocridade dos integrantes do Poder Executivo ou do Legislativo –, mas pela tibieza ética dos agentes políticos e, principalmente, pelo corporativismo atroz dos partidos políticos. Estes erraram ao cometer ou acobertar crimes de corrupção e, depois, erraram mais ainda ao abrir combate contra a elucidação desses crimes. 

O tal “protagonismo” do Judiciário cresceu com mais força a partir dos julgamentos dos sucessivos escândalos de corrupção, crimes cujos autores são, além dos empresários corruptores, deputados, senadores, ministros de Estado, governadores ou gente ainda mais graúda. Foi nos escombros da ética pública que o estrelato judicial fincou seus alicerces. A omissão acintosa dos políticos e dos partidos em compreender, corrigir e punir seus próprios crimes de corrupção deu a base de apoio para a hipertrofia de uma mentalidade que vê nos tribunais uma saída política para o Brasil. 

As agremiações partidárias que contam – PT, PSDB e MDB – não esboçaram nem um rascunho de autocrítica. Corrigindo: o MDB, essa ameba gigante sem consciência moral, na verdade não conta nada, pois não tem existência no plano da ética pública. O PSDB, cuja identidade se esfacela, finge que nunca ouviu falar de Aécio Neves e não explica os crimes cometidos por seus quadros, embora sinta uma vergonha perceptível. O PT é pior. Seus integrantes, quando muito, admitem “equívocos” ou “erros”, mas não falam nada sobre os crimes de seus dirigentes históricos e tratam como fantasiosos todos os fatos incontestes. 

Em resumo, as principais lideranças políticas do Brasil raciocinam e agem como réus – ou como amigos de réus –, renunciando ao seu dever de apontar caminhos institucionais para o Estado nacional. 

É nesse vazio político – e não em vazios burocráticos abertos por falhas resultantes do mau funcionamento das instituições estatais – que a judicialização da política prospera. A culpa por esse vazio não é das excelências togadas, por mais que estas se envaideçam com a fama que desfrutam, mas dos políticos e de seus partidos, que se revelaram pequenos, interesseiros e oportunistas diante do desafio de engendrar uma política que melhore – e não piore ainda mais – a democracia. 

Corruptos precisam ser julgados e punidos, sem dúvida, e isso cabe aos tribunais. Mas os destinos da Nação não cabem aos tribunais. A solução para as disfunções da democracia não virá da toga, só poderá ser gerada no campo da atividade política democrática, com partidos fortes. O problema é que partidos políticos fortes, intelectualmente honestos, estão em falta. Os que aí estão fizeram uma frente ampla contra o Judiciário, como se sua única utopia fosse a impunidade. O pior é que talvez a alcancem, pois, por mais tentadora que seja, a judicialização da política não se sustenta no longo prazo. Mais cedo ou mais tarde, terá de ceder. A quem? Ora, aos partidos, por piores que eles sejam. Na queda de braço entre uma distorção e outra, a política se desqualifica um pouco mais. 

*EUGÊNIO BUCCI É JORNALISTA, PROFESSOR DA ECA-USP