Rosana Gimael Blogueira

terça-feira, 10 de março de 2015

A Kombi amarela






Em um tempo não muito distante lá estávamos nós, família Bechara Gimael e Baracat," a bordo" de uma Kombi amarela, a descortinar novos horizontes em meio a verdes, azuis, montanhas, estradas, restaurantes, lugares paradisíacos e, principalmente, a visitar os parentes de São Lourenço -onde hospedávamos em muito bons hotéis- e em arredores pitorescos mineiros e no litoral, onde nos deleitávamos.

E lá íamos nós, estrada afora, na Kombi amarela do meu Tio Jorge Baracat...

Capitaneavam no banco da frente, Tio Jorge, Michel-meu pai - e, espremido, o Tio Zé Bechara.

No banco do meio, vinham minha mãe, minha tia Chafia e minha tia Alice, esposa do Zé Bechara, cercadas por Jamil, Jorginho, Rogéria, Salete e Iara- os “pequenos”. Esses se distraíam com os looongos papos das jovens e animadas senhoras que eram incumbidas dos lanches e bebidas para todos. Na maioria das vezes, o famoso pernil era o protagonista, dentre a profusão de petiscos. E quanta comilança havia naquele espaço, naquele veículo!

No banco de trás, estávamos nós, os mais velhos: eu, Michel Jr., Zarif, Meire, Zé Roberto e Luizinho-esses dois últimos primos, juntos com Salete e Rogéria, filhos do pândego Zé Bechara.

O som era comandado por Tio Jorge- rock progressivo dos bons , MPB e, por vezes, Roberto Carlos que ele oferecia a minha tia Chafia-, assim como a “direção” também era somente dele. Esse meu tio era calmo, atencioso, alegre, generoso, emotivo, coração gigantesco. Esse meu querido tio, com sua descomunal generosidade e com sua sensibilidade ímpar nos apontava tudo o que via pela frente de novo, de lindo e tocava nossos corações, nos inspirava e nos comovia com tudo o que pra nós apresentava e, com a trilha musical impecável, introduzia em todos nós um repertório primoroso que ecoa em nossos ouvidos e ressoa em nossa essência até hoje!

Meu pai e meu Tio Zé, além de assessorarem meu tio Jorge, o “piloto”, com “mapas” improvisados, com o “esperto” cafezinho da garrafa térmica e variadas conversas, encarregavam-se das brincadeiras, imitações, tiradas engraçadas com as quais literalmente chorávamos de tanto rir e, através delas, chamávamos a atenção de todos a nossa volta...as pessoas ficavam estupefatas com tanta gente em um “automóvel”, com tanta alegria, com tanta união e, claro, com o nosso “estilo”! rsrs

E fomos nós, durante dezenas e dezenas de vezes, durante nossa infância, adolescência e início de nossa juventude, ancorados por eles -nossos pais-, viajando com eles, aprendendo com eles, protegidos por eles, assessorados e muito bem acarinhados(amados!) por eles...durante muito tempo foi na Kombi amarela, depois em outros carros, já cada qual com o seu.

Foi uma época em que não ouvíamos falar de grandes fatalidades, depressão, estresse, nem de religiões; não havia grandes discussões sobre política, ideologias e tantas outras coisas, dadas as “mídias”(???) da época...e era muito raro as famílias viajarem tanto assim, juntas e costumeiramente. Foi uma época de fartura, de muito amor, respeito, alegria. Não ouvíamos nossos pais “discutirem a relação”, nem falarem mal de ninguém. Não os víamos tensos, tristes, reclamões, falando de finanças, de assuntos impertinentes.
Foram “anos dourados”...

Acordei com as palavras de Nelsinho Motta: “ As pessoas devem parar de viver a nostalgia. Ela emperra o presente, impede você de enxergar as maravilhas do Hoje...” rsrs . Pois bem, eu vos digo, caros leitores, que mal há em reviver, vez ou outra, o bom passado? Se hoje somos o que somos, devemos muito ao que vivemos; se tivemos um “mau  passado”, enterremo-nos, pois, ou aprendamos com nossos erros e que eles nos fortaleçam ! Mas se há coisas tão ternas e lindas pra rememorarmos, por que não deixarmos as boas lembranças nos abastecer nessa manhã não tão luminosa? E que o verso “Recordar é viver” faça jus a quem interessar possa...a quem tem a bênção de poder ter coisas lindas pra relembrar e seguir forte e muito bem abastecido no Hoje!

A imagem da Kombi peguei na internet. O “Vamos fugir” é uma pedida pra ficar “fora do ar”, fora do emaranhado de coisas tristes que assolam o nosso país e o planeta em que Hoje vivemos...pelo menos por alguns momentos!


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