Rosana Gimael Blogueira

quarta-feira, 18 de março de 2015

Homenagem a dois Mestres da MPB,Tom e Elis...AMOOOO!!!!


Presenciei ao vivo essa mulher vibrante em Sampa, no show Falso Brilhante, em fevereiro de 1976..A.música foi feita por  Chico Buarque e Francis Hime e não fazia parte do repertório do referido show. Essa canção -" uma das mais poderosas e dilacerantes letras de amor e ódio da música brasileira"- me remete a alguns poucos e intensos momentos "altamente  fossídicos" em meus tempos de "coração sequestrado"...rsrs



Tom  e a canção antológica que um dia "embalou" uma linda história de amor!

A história de Ligia contada  ( e adaptada) em prosa...

1968, Ipanema, no Veloso...Tom Jobim e o fotógrafo Paulo Góes, deparam-se com duas lindas moças na varanda do bar e se aproximam. Uma delas, Lygia Marina de Moraes, jovem muito bonita, sobrinha de Vinicius de Moraes,  diz a ele que é professora do pré-primário de uma de suas filhas, ao que o músico dispara: “Nunca vi uma paquera transformar-se em reunião de pais e mestres”!
Lygia, muito tempo depois,  veio  a saber, surpresa,  que ela fora inspiração para uma das  mais belas canções (Ligia) do cantor e compositor, também cantada por Chico Buarque, pela primeira vez, em 1974, em Sinal Fechado.
Ela se casou com o cineasta Fernando Moraes, com quem ficara por dez anos – nessa ocasião Tom estava casado. Depois, separada,  casou-se  com  outro Fernando, o escritor Fernando Sabino, com quem ficou por doze anos –muito amigo de Tom. Ele só revelou que ela  fora sua musa inspiradora depois que estava separada de Sabino claro, em  consideração ao amigo!  Nessa ocasião, quando soubera disso, Lygia apenas comentara  que ele fora um dos homens mais bonitos do Brasil e que ela ficara em transe ao conhecê-lo pessoalmente naquela tarde fria e chuvosa, no conhecido bar, no Rio...rsrsrsrs.
Mas a Lígia ( essa  leva acento no primeiro i ) a  quem  me reportarei  a seguir  é personagem de  uma história que tem como cenário uma charmosa cidade do sul de Minas, cercada de montanhas e águas milagrosas.
Era uma moça tímida, não tão cheia de belos atributos, com olhos negros e cabelos idem. Lígia estava  a passeio com a família, naquele reduto muito bem frequentado por  interessantes e bem-nascidos “cariocas”. Costumava passar as férias de julho naquela cidadezinha mágica...rotina de vários anos. Contava ela então com 17 anos. Gostava de praia, gostava de sol e quando ia ocasionalmente ao Rio,  costumava andar pela orla de Copacabana até o Leblon. Tinha alma romântica, gostava de cinema e era impregnada pela música ( e amava samba!).
E um dia, Renato, carioca,  conheceu Lígia. Dez anos mais velho, costumava arrancar suspiros das mulheres por onde passava. Vislumbrou-a no clube, depois de um jogo de vôlei com a turma e,  com Lígia,  deslumbrou-se. E desde aquele momento, ela impregnara  suas retinas, seu corpo, seu coração. Nada sabia dela, sequer  o nome. Não gostava ele de praia nem de cinema...não gostava de sol!  Nunca sonhara com ela, pois não fazia o seu tipo. Mas ela mexera de alguma forma com ele.  
Em uma noite, na “balada” do hotel da cidadezinha onde ela, há muitos anos,  costumava se  hospedar  com a família, os olhos de Lígia cruzaram os de Renato.  Ele, estudante de Direito, no auge dos seus 1,90m, pele clara, olhos verdes,  músico, filho de um general,dela se aproximou,   acompanhado por dois  seguranças . E, juntos, dançaram a noite toda para  depois não mais  se desgrudarem naquela temporada.
Pois bem, olhos nos olhos, embalados pelas lindas melodias da década de 70, os dois iam se entremeando no jogo de olhares, dançando a noite toda , de uma forma  inesquecível, chamando a atenção de todos ao redor.  Ela estava ricamente adornada,  vestida  entre exótica e exuberante, ao que ele muito elogiara e o fascinara, a princípio.  E, a despeito de seu jeito tímido, Lígia era uma moça de atitude e bastante interessante, segundo diziam os que a cercavam de muitas atenções. Talvez fosse isso o seu trunfo para que muitos a achassem  bonita, coisa que ela sempre soubera não ser. Talvez por ter tanta coisa a dizerem um ao outro é que o tal “romance” perdurou por um bom tempo, como foi a seguir, após aquela  mágica noite.
E ela se encantara por ele, apesar de muito estranhar os dois brutamontes “blindando-os”  o tempo todo.
E ele  se viu envolvido pelos braços serenos de Lígia. E se rendeu a ela, a despeito se seus olhos morenos meterem-lhe mais medo que um raio de sol.
E  ele fez uma serenata  -  cantou  "Ligia" pra ela! - , embaixo da janela do quarto dela no hotel, sob o olhar cravado e inquisidor do pai dela.
Mantiveram o “enlace” por dois anos, apesar da distância, dos 600 km que os separavam.  Eram telefonemas e telefonemas -  todos no domingo à tarde, quando ambos não se viam na cidadezinha turística. Ela, convidada por ele e sua família, fora  ao seu encontro, em certa ocasião, no Rio, onde ele morava  -em um tríplex,  no Leblon-,  sob o consentimento e tutela tanto dos pais dele quanto os dos dela,  que muito faziam “gosto” de que os dois ficassem juntos, apesar da diferença de idade entre eles.
Lá, ele lhe apresentara  um  outro universo e, com ele, pôde aprender coisas incríveis. E ela entendeu o porquê de ele e toda a sua família serem cercados pelos  seguranças – os tais "brutamontes" a que ela se referia, rindo muito -  e a vida tão diferente  que ele e a família levavam por conta do “status” do pai o que, posteriormente , contribuiu para que ela dele se desencantasse...ou não teria sido amor?
Eram cartas e cartas todas as semanas!  Cartas aguardadas ansiosamente por eles. Cartas imersas, hoje, dentre tantas outras relíquias,  no baú de Lígia. Cartas  essas,  amareladas pelo tempo, com gosto de uma linda história de amor, permeadas  de lindas descobertas, de escritas inteligentes, fascinantes – "ridículas" cartas de amor, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas como diria Pessoa!?!-, que trazem à tona uma época  em que a comunicação, apesar de tão retrógrada para os dias de hoje, fazia aproximar  tão calorosa e tão lindamente as pessoas...registros preciosos de uma áurea época que colorem vibrantemente, hoje,  a fria e cinza tarde nesta  estação do ano.
(...)

E, no ar, apenas a  essência – ah, que cheiro booom, suspira Lígia! -   do que ela  e Renato um dia viveram.

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    Todas as cartas de amor são
    Ridículas.
    Não seriam cartas de amor se não fossem
    Ridículas.
    Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
    Como as outras,
    Ridículas.
    As cartas de amor, se há amor,
    Têm de ser
    Ridículas.
    Mas, afinal,
    Só as criaturas que nunca escreveram
    Cartas de amor
    É que são
    Ridículas.
    Quem me dera no tempo em que escrevia
    Sem dar por isso
    Cartas de amor
    Ridículas.
    A verdade é que hoje
    As minhas memórias
    Dessas cartas de amor
    É que são
    Ridículas.
    (Todas as palavras esdrúxulas,
    Como os sentimentos esdrúxulos,
    São naturalmente
    Ridículas.)

    Álvaro de Campos, 21-10-1935
(ilustração criada por Tatiana Paiva)



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