Rosana Gimael Blogueira

domingo, 18 de janeiro de 2015


“Nada mais...nunca mais”

O
 amanhecer veio úmido, frio, sombrio. O mar trouxe ondas altas, muito altas, com quase três metros de altura. A natureza tingiu-se de cinza e tudo a nossa volta ficou sem alegria, sem vibração, sem o cenário habitual. A chuva chegou torrencial, sem trégua, há dias.

 “Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:- é um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais, como um fidalgo passa, augusto e, sem notar sequer meu susto, adeja e pousa sobre o busto - uma escultura de Minerva,bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva,empoleirado e nada mais”. Esse trecho, de Edgard Allan Poe, revela um momento depressivo do autor quando se vê   assolado pela lembrança da amada Leonora que já não está com ele, o que lhe traz sentimentos doloridos. O corvo sinaliza algo nefasto e encerra-se a “litania”, nos últimos versos, espantando a sua dor com um “nunca mais”.

Abri a janela: primeiro veio um, depois outro e mais um terceiro corvo no gramado, frente a janela, no amanhecer sem cores vivas, com um vento absurdamente pesado. Eles ali, enormes, um deles com as asas imensamente abertas.

 Há décadas não via corvos. Não há nada que pudesse induzi-los a ficar por aqui. Nunca gostei de corvos, tenho vários momentos cruciais em que topei com eles, independente da iminência de possíveis “carniças”, eles me trouxeram aperto no peito... Mas, dizem, eles são necessários, independente de   sinalizarem, para muitos, um mau agouro.

Nem sempre os dias serão coloridos, nem sempre tudo serão flores, nem sempre alegrias e felicidade serão uma  constante em nossas vidas.

 Há que nos prepararmos para dias menos vibrantes, sem cores, dias em que a nossa alma se sente de luto, sem, muitas vezes, termos nós algum motivo palpável para tal sentimento.

Dias assim tanto podem nos  servir como um convite a uma boa leitura, a bons filmes, a boas e intermináveis conversas regadas a um bom destilado, a aconchegos com alguém interessante, à reflexão, à conscientização de que tudo é perene. Mas se estamos entristecidos, de mal conosco, ou propensos a esperarmos algum tipo de sinal da natureza, alguma resposta do divino, a tendência é fazermos de um dia como esse um momento de desalento, de agonia, de uma certa melancolia um tanto nefasta para o nosso espírito - que abriga a nossa alma -, nos aprisionando a algo que  transcende a nossa razão.

Há que ser forte, é imprescindível saber viver da melhor forma possível, superando momentos difíceis... isso requer um exercício disciplinado, extremamente disciplinado do nosso espírito para que a nossa alma se aquiete, se harmonize, se console, se liberte de qualquer opressão que a ela possa se sobrepor.

Meus cães desataram a correr pra cima dos grandes pássaros negros, latindo, fazendo-os debandarem-se daqui pra longe, bem longe daqui.

Eu mentalizo a cor lilás, a cor do amor, abrandando a turbulência da minha alma com imagens boas, quadros pincelados de alegria, trazidos à tona pela minha memória afetiva. 

Congelo imagens da infância boa, preencho possíveis “vazios” com “Casamento Grego” – visto inúmeras vezes - que muito lembra a minha família. Revejo cenas familiares na trama tão parecida com o que vivi, apesar da ascendência diferente, de alguns costumes diferentes.  Identifico-me com a essência de Tula, personagem principal, me emociono. Sempre me emociono com esse filme.

Finalizo, colocando um DVD com músicas de nacionalidades distintas.  Concentro-me em três delas: uma, grega, aquela em que se quebram pratos no final, que me faz extravasar emoções; a outra, árabe, que me induz a descortinar novos horizontes; a última, tarantella, me faz sentir uma  alegria descomunal.  Danço de frente ao espelho cada uma delas, com “coreografias” distintas, repetidas vezes, à exaustão, espantando o frio, fortalecendo o meu espírito, aquecendo a minha alma.

Depois, percebo uma nova cor em mim, me descubro dotada de um  certo poder. Jogo-me ao chão com meus cães esfuziantes. Recomponho-me. Devoro um camarão gigante, fresquinho, lindamente preparado por Zeus.  Tasco-lhe um beijo estalado, como reconhecimento da gentileza, da atenção.  Despejo palavras no Pc, devidamente acompanhada por um Frangellico.  Sinto o torpor do bem, o calor da vida pulsando em mim, sinto-me revigorada.   

Celebro o melhor da vida: o meu presente, o meu hoje.

Crio coragem e, audaciosa, dou um  enfático  adeus pra tristeza que tentou, sem sucesso, uma possível aproximação comigo: aqui não há vaga pra você, sua vilã! À porta do meu coração você não bate meeeesmo! Não se atreva a voltar! Nada mais tenho a lhe dizer...até nunca mais!