Rosana Blogueira

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Salve, São Pedro!!! Salve, Vida!!!

  





C
hove como nunca vi chover por aqui.
A chuva em um feriado induz ao ócio ( criativo ou não), ao aconchego, a uma boa e farta mesa,  a um grude com a pessoa amada. Chuva e frio- junto ao frenesi de escrever - induz meu espírito a rever cenas e uma necessidade de recriar muitas delas, despejando “in  incontinenti “ palavras e palavras, cujos reais significados ou sentidos podem se perder nas entrelinhas,  serem mal  interpretados ou não terem certa razão  em si mesmos.
 Palavras brotam, criam asas, voam de dentro de mim...eu não as controlo.
Amanheço clamando por um café colonial, mas meu metabolismo já não colabora, mesmo tendo eu mergulhado em uma vida bastante ativa e, hoje, adepta a esportes ao ar livre,  dedicada a cuidar de mim de forma incomum e conivente com a máxima: “corpo são, mente sã ”.
Estar aposentada é muito bom, principalmente sem culpa alguma por não estar  trabalhando sistematicamente em coisa alguma.
O termo aposentada já seria um motivo pra se sentir em pânico. Pra muita gente pode significar fim de linha, o abismo pra sentir a velhice,  um acenar para a depressão.
Estar aposentada com ossos fortes, coração leve ,  mente tranquila  (e espinha ereta, claro!) e em paz com os hormônios é oooutra coisa.
Ler  jornais página a página ( e depreender dele apenas o que pode me abastecer de melhor),  reler  e rever  (livros e filmes) clássicos que fizeram a minha cabeça, ouvir boa música , aprender um outro idioma, conhecer cada canto da região sul, prestar atenção em cada detalhe da natureza, ouvir com calma boas histórias do povo local, mergulhar no alternativo, conhecer outras histórias, voltar a fazer coisas que deixei pra trás por falta de tempo, fazer coisas que sempre sonhei   fazer, mas a correria do dia a dia não me permitia são coisas que afastam qualquer nuvem pesada que possa ter indício de depressão, de maus pensamentos, de solidão ou seja lá o que for.
Não existe solidão pra quem está bem resolvido, pra quem teve uma vida rica repleta de  boas e gostosas experiências, pra quem está cercado de boas coisas (e bons pensamentos),  pra quem está com a consciência tranquila.
A depressão se  instala , sorrateira,  pra quem vive do passado, pra quem vive pensando no pior, pra quem se concentra em  perdas , pra quem se concentra em si mesmo, pra quem olha apenas para o próprio umbigo, pra quem se detém em tragédias, pra quem exige a perfeição de si mesmo e, principalmente, do outro, pra quem é implacável consigo mesmo e com o próximo nos julgamentos, pra quem tem medo o tempo todo de ficar só consigo mesmo, pra quem  não consegue se dar bem consigo mesmo.
Doenças de toda a sorte – físicas ou não - chegam pra quem  guarda mágoas, derrotas, tristezas, pra quem cria expectativas no outro pra ser feliz, pra quem vive do “se” e do “quando” ( se eu tivesse dinheiro, quando eu tiver tempo...), pra quem tem necessidade de provar coisas o tempo todo pra todo mundo, pra quem não se sente amado, pra quem não se dispõe a amar, pra quem só pensa  em  acumular sem compartilhar, sem repartir, pra quem  nunca tem nada a dizer de bom, apenas lamenta a própria sorte; pra quem tem pena das pessoas mas não pratica a compaixão, pra quem tem espírito de autocomiseração e, portanto, permite a chegada de pessoas mal intencionadas em suas vidas que as fazem desmoronar, sem saberem  o porquê de não terem sorte em seus projetos, na vida.
Muitos vivem à espera da cara-metade ( ou seria a cara inteira¿!)sem ser inteiros  pra ninguém, vivem de amores impossíveis e se esquecem de amores possíveis, esperam o homem ou a mulher perfeita, mas têm medo da entrega, só querem receber e receber...talvez por julgarem não terem nada a doar, ou não se sentirem merecedores de nobres sentimentos, ou por  não acreditarem em si mesmos, ou ainda não acreditarem no amor em um sentido muito mais amplo...são sempre as vítimas dos infortúnios da vida.
Para esses, não existe um motivo maior pra serem felizes nunca - engavetaram sonhos, vivem à margem da vida, são personagens secundários da própria história, são sempre os bonzinhos demais, os sensíveis demais, inspiram sempre um cuidado maior no trato com eles-sentem-se derrotados, enfraquecidos, injustiçados pela vida.
Outros sentem preguiça de irem à luta, não têm motivação pra trabalharem, pra se cuidarem, pra amarem, pra se doarem, pra viverem  plenamente...e esperam acontecer...sempre!  São papagaios de piratas,  seres rastejantes, “deixam a vida os levar”, vivem ou do ontem ou do amanhã.
Aí, o corpo adoece, a alma envelhece, o espírito enfraquece, a mente atrofia. Sintomas comuns de pessoas que se esquecem de que a felicidade são momentos, que são pequenas cotas correspondentes a pequenos grandes detalhes ( que elas mesmas podem cultivar) que fazem a diferença, ouvindo mais as pessoas ao seu redor  e a essência  que delas emanam, sendo mais solidárias na dor, nas adversidades que povoam  o dia a dia dessas pessoas.
Muitos vivem de falsas ilusões, de aparências, de paradigmas ultrapassados, dos velhos modelos de convenções sociais, de frases e pensamentos alheios, do que o outro vai pensar ou  achar, da necessidade de agradar sempre.  Vivem sempre ansiosos, estressados, amargurados.
Muitos se acomodam, deixam o medo se instalar em suas vidas, que a todos paralisa. Não se arriscam com nada, em nada, com ninguém. Cortejam  o que julgam estável, se esquecem de que tudo é instável, de que tudo é efêmero nesta vida e dela nada levamos.
Outros vivem  às custas dos “formadores de opinião” , dos articulistas, de acumularem saberes e saberes, se travestem de uma falsa intelectualidade, pregam uma falsa verdade( ou se acham os donos da verdade absoluta), proclamam aos quatro ventos uma autossuficiência, uma bem-sucedida vida, cercados de todo o conforto material, sempre acumulando e acumulando coisas , revestindo-se de uma fé inexistente...e vivem uma  vida deprimente . E convivem com a solidão e o espírito  acusativo, à base do ” tarja preta” pra poderem dormir, pra poderem  amortecer (ou amortizar) as dores do corpo, da alma, do espírito, do mundo...pra poderem  acordar  com a falsa sensação de felicidade e euforia de “falarem e falarem  demais por não terem nada a dizer”, e nada a acrescentar. E poderem recomeçar  outro dia  (se entristecendo  por dentro),  prontos pra camuflarem, pra maquiarem a vida insípida que têm.
Então, voltando ao clamor do  meu corpo, aceito o convite do meu não tão “guapo” e nada perfeito amor, e vou até ali –numa pequena e simples confeitaria-, “montada” num visual outono-inverno todo pretão básico, cores no rosto, mais pra gaúcha que paulista,  me “jogar” sem culpa no aconchego dele e de um folhadinho de banana, devidamente acompanhado de um delicioso e calórico chocolate quente, embalada pelo Raulzito com a música tudo a ver comigo agora...  “Prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo!”
E que venha a chuva e o frio!
E que a vida seja muito bem-vinda!