Rosana Blogueira

domingo, 18 de janeiro de 2015

Amores possíveis





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A
 maioria de nós  busca  nos  relacionamentos certa  estabilidade, segurança - material e emocional -  alguém cúmplice, romântico, leal, amigo, bom amante, generoso (em todos os sentidos!),  que tenha uma aparência pelo menos razoável, afinidades, gostos parecidos, estilos de vida compatíveis, nível emocional, intelectual, cultural semelhante  ao nosso, dentre tantas outras coisas. Muitos se contentariam com  muito menos...mas encontrar  alguém “tão completo, tão  perfeito pra nós”  é uma dádiva divina. Ou pura sorte. Mas isso não  nos garante o caminho da felicidade. Mesmo por que o conviver com alguém no dia a dia, por mais perfeito que esse  alguém   possa  nos parecer,  é tarefa árdua e para muito poucos, muuuuito longe de possíveis  idealismos (ou devaneios!)  que alimentamos ao longo da vida.
Desde sempre nos incutiram que os opostos se atraem  - não sabemos por quanto tempo -, que cada um de nós tem  a “sua cara-metade, a sua  alma gêmea, a sua  metade da laranja, a sua tampa  algum lugar,  em um  determinado momento, de preferência “ mágicos”, aparecerá a pessoa instituída também desse poder mágico que nos fará reconhecê-la  como alma afim, a pessoa feita para nós, sob medida, de preferência com um caimento tipo roupa da alta costura. Tudo bem até aí. Quem vivenciou tal situação,  sabe bem sobre o que estou falando: é indescritível a sensação de ter encontrado alguém que nos  parece tão perfeito – nem que seja por pouco tempo -,  sem defeitos de” fabricação”.

E , é assim,  a despeito de tantos  clichês  que  nos acompanham vida afora, exercendo certa influência  (ou expectativa)  em nossas, digamos, escolhas,  que muitos seguem (ou perseguem)  em busca do impossível: uma pessoa bem próxima da perfeição.  Na iminência de uma suposta frustração  ou desventura  por  não encontrar  o  par perfeito, muitos de nós nos acomodamos,  nos desiludimos, nos conformamos  com a  hipótese de que a sorte no amor é para poucos, ou viver uma boa história com alguém está fora de cogitação por inúmeros motivos (ou pretextos).
Então, nesse caso,  o amor se torna impossível de ser vivenciado na plenitude. Impossível por não corresponder a  tão  exigentes expectativas, sim, porque não há pessoas nem relacionamentos perfeitos. E ainda nos  advêm  as surpresas: muitas vezes o que mais rejeitamos em uma pessoa, o que mais nos faria afugentarmos  dela,  daquela com  quem em  “sã consciência”   não nos envolveríamos   é o que o destino auspiciosamente nos coloca no caminho: pessoas pra lá de imperfeitas.
Muito fácil nos relacionarmos com pessoas que, aos nossos olhos,  seriam perfeitas para nós. O desafio é lidar com a imperfeição do outro. E, cá entre nós, quando se consegue romper  com as barreiras, com os preconceitos - e os estigmas! - ao assumirmos alguém totalmente diferente do que sonhamos um dia ter por perto, podemos nos  surpreender  com  o inusitado aprendizado, com a evolução dos sentimentos, com as riquíssimas descobertas, com um novo  significado de felicidade e de  relacionamento.  Mas dá trabalho.  Demanda de nós coragem, audácia. Isso  é para poucos, não é para qualquer pessoa.

 É  para aquelas que encontraram outro significado de vida: as que vão muito além do óbvio, para as que conseguem romper com quaisquer amarras do comodismo, para aquelas com olhar atento que extrapola  o  das  aparências,  para aquelas que não se alimentam de  falsas ou ilusórias expectativas.

Para essas pessoas, o amor sempre é possível e os relacionamentos muito mais acessíveis,  uma vez que são libertas de qualquer tipo de dogma e estão compromissadas com elas mesmas em  tirar da vida um sentido muito maior.  Essas pessoas são  únicas, têm um certo brilho incomum nos olhos, uma  luz que se irradia por onde passam. São elas as mais  criticadas, já que romperam definitivamente  com certas convenções arcaicas, ousando vivenciar novas  sensações, novos  sentimentos.