Rosana Gimael Blogueira

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015


Se os homens realmente soubessem o quanto as pequenas coisas fazem a grande diferença para uma mulher!

Ao olhar para o espelho, Ana deu um berro :“Meu Deeeeuuus, essa, definitivamente não sou eu! O que foi feito de mim? Daquela mulher “viçosa, com pele de pêssego”, olhos e cabelos (fartos!) brilhantes?”
Aquela imagem refletida no espelho, logo ao acordar, remoeu-a durante toda a manhã. Era o Dia dos Namorados. E ainda naquela semana, ela teria duas festas para ir. Ela queria estar bem. E estar bem ,para ela, era estar devidamente aparentável, desejável. Contava ela com seus cinquenta anos e não queria aparentar menos; apenas queria que os seus cabelos não estivessem opacos , com aquela aparência de vassoura, eriçados. Apenas queria que os sulcos e as rugas em seu rosto não fossem tão salientes (e evidentes!), que não denunciassem as noites mal dormidas ,os excessos, os abusos cometidos - bebidas ( ah, a bendita caipirinha!) cigarros, frituras (ah, a bendita mandioca e o bendito torresmo!) - nem denunciassem a ansiedade por aquele moço tão disputado e a quem ela dispendeu longas noites de sedução e empenho para dele arrancar suspiros e algumas “garantias” de amor explícito ou qualquer tipo de arrebatamento que pudesse fazer dela uma mulher única, realmente amada! (?)
A única certeza que tinha é de que precisaria brilhar, ou melhor, ofuscar todas as outras mulheres ao seu redor. No fundo era isso que realmente desejava Ana. E, para tanto, o momento de agir era agora, já!
Estava desprovida de recursos financeiros, pois sempre gastara mais do que ganhara. Tivera que abrir mão de bons cremes, bons produtos de maquiagem, boas roupas para poder morar bem, alimentar-se bem - ora, a pele não revela a saúde do corpo, a boa nutrição?
E, assim, começaria ali,naquele momento, com toda a sua inerente versatilidade e criatividade, a batalha por ela travada para tentar reverter o “ pavoroso quadro”.
Naquele dia, ela receberia o tal rapaz em sua casa. Era a “Noite” dos Namorados!
Foi até a cozinha, separou duas claras de ovos ligeiramente batidas e juntou-as à pasta de argila verde que tinha, costumeiramente, em seu armário. Colocou-a sobre a face. Essa tal pasta costumava operar milagres em sua pele. Melhor, funcionava momentaneamente como uma eficaz substituta de qualquer intervenção cirúrgica que melhoraria a estética e a deixaria fantasticamente reluzente. Despejou também sobre os cabelos uma mistureba de cremes, ampolas de vitamina, abacate amassado, as gemas dos ovos anteriormente separadas das claras e fartas colheradas de um bom azeite. E foi aos afazeres. Enquanto deixava a casa um brinco para receber o homem amado, idealizava, fantasiava cada futuro momento que vivenciaria naquela semana. E enquanto esfregava aqui e ali, deixava-se embalar por melodias românticas que mexiam com seus sentimentos, deixando-a mais sensível do que nunca. E , assim, passaram-se as horas. Já eram cinco da tarde. Ela passara o dia com frutas para atenuar o inchaço, na vã tentativa de afrouxar um “pneu” (bastante calibrado!) acima da linha da cintura. E bebera muita água para ” lavar ( e levar embora!) todas as impurezas”. O recomendado era deixar as tais máscaras tanto da pele quanto a do cabelo agindo por vinte minutos. Ela resolvera deixar mais tempo para que surtissem um efeito muuuito melhor. Pois, bem. Já era hora (passava da hora!) de tirar toda aquela parafernália. E, ao término da faxina, lá foi ela resgatar a cútis sonhada e o brilho da cabeleira farta.
Resolvera, inicialmente, tomar uma ducha gelada - seria perigoso para o corpo e rosto receberem um choque térmico, já que estava toda suada? Quem sabe todos os poros, todas as células levassem um susto, acordassem ( ou seriam ressuscitados?) e dessem a ela um novo frescor, pensava ela agora, animada. Esfregou todo o seu corpo com óleo de amêndoas e sal grosso, esfoliando ligeiramente todo ele com essa tal gomagem , para ativar a circulação e proporcionar-lhe uma pele tipo bumbum de neném. Lavou os cabelos. Constatou que o cheiro do azeite e dos ovos impregnara os fios. Tentou tirar a máscara facial. Ela simplesmente colara em seu rosto! Seria a tal clara a “cola”, uma espécie de argamassa? Meu Deus...campainha da casa tocando agora? Nada da máscara "descolar". Campainha insistente. Ela começou a se deseperar . Olhou para o espelho e se viu como uma bruxa aterrorizante. Foi atender daquele jeito mesmo. E encontrou um entregador diante dela com um imenso buquê de rosas cor-de-rosa junto a um cartão: “Com todo o meu amor, pra vc! Até às 9! Bjos.. Paulo.” Por um momento, pensou não serem para ela aquelas rosas. Afinal, rosas dessa cor, pelo que sabia, significavam amizade, mas ao constatar o cartão com letra conhecida e o nome mais que familiar,a dúvida se dissipara. O rapaz diante dela a olhava entre surpreso e curioso, para não dizer um tanto assustado com o que se deparava à frente dele tkstkstks. Ela lhe agradeceu, engoliu seco, fechou a porta atrás dela e voltou para o espelho com o coração aos pulos, num misto de raiva e decepção! “ Não pode ser... rosas cor-de-rosa! Ele quer apenas amizade comigo , depois de tuuudooo? Mas ele me chama de amor! Ele me paga, isso não fica assim! E agora esse rosto, esse cabelo...”
Olhou para o aparador onde já colocara fina toalha, talheres, pratos e arranjos que denotavam gosto refinado. Abriu a geladeira. Lá estavam as comidinhas feitas por ela para o seu amado. Voltou à toalete para dar um jeito no visual. Após inúmeras tentativas, com o rosto em chamas, cabelo ressecado de tantas lavagens, corpo um tanto "esfolado" e com um péssimo humor, começou se preparar, agora a contragosto, para receber o tal rapaz. Faltavam quinze minutos para as 21h quando Paulo apertara a campainha. Ela acabara de se arrumar. Ao abrir a porta o avistou, entre meios-sorrisos a perguntar-lhe , ao mesmo tempo que tentava beijá-la, se ela havia gostado das rosas, ao que súbita e inesperadamente, ela apenas arremessou, num frenesi, o tal buquê contra o atônito rapaz que não conseguia entender a inexplicável e um tanto violenta reação de Ana, que agora ia lhe despejando palavras duras e cerrando a porta na cara dele. E lá se fora a noite pro ralo e rosas pro alto.
(...)
Naquela mesma semana, após a tal noite, Ana fora encontrada por amigos se esbaldando nas pistas de dança em privilegiados eventos. Fora alvo de muitos elogios e de grandes e entusiasmantes aproximações de pessoas bem interessantes. Ganhara ela uma base (make up) em 3 dimensões de sua amiga a qual fizera milagres em seu rosto; sem contar o batom vermelho-madonna, importado, milagroso preenchedor de lábios murchos. Seria isso a lhe dar tanto poder, tanta segurança a ponto de esquecer o incidente anterior, o da tal noite fatídica, frustrante? Confiante estava ela e, talvez por isso, era dotada agora de um estranho poder que a fizera a mulher mais disputada em seu meio. Esquecera-se por preciosos momentos de que, ocasionalmente, ela se sentia uma” balzaca mal passada”. Rsrsrs.
Quanto ao tal Paulo, soube-se depois que ele, ao desabafar com uma amiga, questionou-a sobre o estranho comportamento de Ana . Essa amiga esclareceu a ele que rosas cor- de- rosa expressam amizade, ou seja, um tipo de demonstração imperdoável para uma mulher supostamente apaixonada. Paulo, um tanto desnorteado e também desolado - como taaantos outros homens costumam reagir a essa situação - , apenas conseguiu balbuciar "como é difícil entender as mulheres"!
(...)
Talvez o que Paulo não saiba ou nunca pôde entender, caros leitores, é que mulheres não foram feitas para serem entendidas. Mulheres foram feitas apenas para serem amadas!
E, apesar de ser mais um clichê de um anônimo, é a pura verdade! E aqui, complemento, meus amigos, que também nasceram elas para serem admiradas, valorizadas e, sobretudo, respeitadas! E tantos outros “adas”...não é?