Rosana Gimael Blogueira

domingo, 18 de janeiro de 2015

          

As aparências enganam
S
entou-se ao meu lado à mesa do bar, um rapaz boa pinta, Juliano. Um gaúcho guapo, olhos claros, quarentão,realmente uma linda estampa, não fosse  o estado um tanto agitado, que talvez denunciasse algum tipo de dependência química...Já havia passado  pelo bar várias vezes, mas naquela madrugada de vento nordeste, parou para uma birita. Das vezes que passara , trocamos cumprimentos e  algumas observações sobre os ruidosos jovens argentinos e, naquela madrugada, segundo ele,  percebeu  em mim um olhar menos luminoso do que de costume que o obrigara a parar...e entabular conversa.Sob o olhar inquisidor do meu filho, sob o olhar preocupado do meu namorado,que  neste bar onde, hoje, juntamente comigo, administram, conversamos por um bom tempo.  Quem me conhece bem, sabe que não faço distinção de pessoas, sejam quais sejam as condições das mesmas, me interessa apenas a essência e nada mais. Ao olhar de pessoas que não partilham desse meu digamos, “conceito”, logicamente sou sempre alvo de críticas, uma pessoa sem “critério de escolha razoável” no quesito aproximação de estranhos...  expansiva, tida como uma pessoa bem “zen”, tenho esta estranha mania de, às vezes, “dar corda” a eles...às vezes me decepciono, muitas vezes não...me encanta o inusitado, me seduz a alma cigana, me inspira histórias alheias, boas histórias...gosto de ouvir, gosto de observar, gosto de escrever sobre elas, “fotografar “ por escrito... T alvez me escolham para isso, acho mesmo que tenho esse dom.    Ou talvez percebam que eu esteja em paz com os meus hormônios( !¿) rsrsrs...
Bem, seja o que for, este rapaz apareceu no momento certo não pra me despejar histórias mas apenas pra me dizer coisas que eu precisava ouvir naquele momento, neste lugar...coisas simples, coisas talvez tão óbvias, talvez clichês, frases que ouvi a vida toda em casa, pela vida...”toques” preciosos dos quais eu havia me esquecido, que fazem a diferença, que nos fazem seguir em frente, sem mágoas, cicatrizando dignamente todas as feridas e a continuarmos  acreditando na vida, mesmo após certas ciladas que o destino nos prepara hábil e duramente, porque deixamos abertas as brechas para tais trapaças, porque nos entregamos, nos damos o melhor  de nós mesmos, incautamente, a pessoas  que confundem sentimentos e valores talvez porque não tiveram o melhor da vida, porque querem obter vantagens em tudo, porque vivem para juntar mais coisas do que gente, porque têm uma dimensão muito mais material da vida, porque são incapazes de acreditarem que as pessoas possam não ser canastronas como elas...
Ele me disse coisas naquela noite de vento intenso e lua lindamente redonda  que me fizeram melhor... “não se relacione intensamente com pessoas mesquinhas, miseráveis, indolentes, que não têm vida própria, que testam a sua amizade, que usam as suas fraquezas, a sua intimidade, a sua fragilidade pra tripudiar sobre vc em um momento de deslize seu, de uma fraqueza sua, de uma vacilada sua...respeite-as, tenha papos bem amenos, trate-as bem, vc pode até alimentar o ego delas, mas mantenha a distância, não as traga para o seu convívio.
O ideal seria não se relacionar mesmo com pessoas que, de cara, de acordo com a sua intuição, com a sua essência , com o seu estilo de vida, com a sua verdade, não batem com vc...quando a luzinha interna se acende, sinalizando que algo realmente não bate com vc, saiba ser sábia, não se jogue, não se entregue, não se doe...siga a sua intuição sempre!”
Tão simples, tão verdadeiramente certo!
Quando as pessoas verdadeiramente gostam de vc, elas não se utilizam de palavras doces, elas têm atitudes. Elas não te convidam pra se sentar à mesa seja pra comemorar datas ou pra conversar, elas te arrastam pra ela, pra casa delas, pra perto delas...elas percebem quando vc é do bem, o quanto vc é amiga, o quanto vc gosta delas através de suas atitudes coerentes. Elas não sugam a sua energia, elas ampliam a sua luz; elas não te amarguram nem te entristecem, elas te alegram, elas te confortam.
Há amigos pra horas certas e incertas; há amigos pra rir juntos,  pra se divertir e ter papos amenos; há amigos de trabalho, da faculdade;   e há aqueles amigos pra tudo, pra o que der e vier. O ideal é nunca esperar nada , não misturar interesses materiais – principalmente quando vc não é” expert “  nesta área  -  com amizade  pra nunca se decepcionar...a decepção acontece quando vc espera do outro aquilo que vc é com o outro, aquilo que vc faz pelo outro...aí não vale!!!Há de se ser amigo pelo simples prazer  de ter alguém em quem confiar de  verdade, pra compartilhar coisas boas ou ruins, mas quando pinta a traição,não há nada que possa fazer valer a pena o que confundimos ser amizade  - isto serve pra qualquer tipo de relacionamento....fica apenas a tristeza daquilo que poderia ter sido e nunca foi!!