Rosana Gimael Blogueira

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015


Recordar é viver...e viver é muito bom demais!

Meu avô Honorato, meu querido amigo vô Nato, um dia me dissera - ao ser por mim indagado sobre sua prodigiosa memória - que, à medida que envelhecemos vamos nos lembrando de coisas e “cheiros” remotos, de situações trazidas pela mente lá de trás, coisas de que anteriormente não recordávamos e que vêm em flashes, assim do nada, sem esperarmos!

Lembrei-me do que ele mencionara há décadas , hoje, ao amanhecer, ao acordar e sentir um cheiro de quase início de outono após um período de calor dantesco.
Senti o cheiro de terra molhada. Logo a seguir, veio até mim a avenida Ester. Nesse cenário, os tais “flashes” abrigaram minha mente. E como um véu a se descortinar, vi a família Fáveri animadíssima na avenida com imensos bois estilizados numa alegria e colorido indescritíveis, entremeados de serpentinas, confetes, cantoria de marchinhas de carnaval, gente bonita, gente animada; em minha imaginação de menina de olhos estupefatos, cravados naqueles “bois” imensos, eu enxergava pés e pés sob eles, numa coreografia estonteante diante da criançada gritando “é a banda do boi chegando”. Eu fitava aquilo tudo num misto de espanto, curiosidade, admiração, alegria incontida, paralisada atrás da porta de vidro semiaberta de casa.

Depois veio uma neblininha tipo “fog londrino”...era a semana santa e, com ela, havia o ritual da via-sacra... A avenida estava escura, porém em cada casa havia do lado de fora, uma iluminação tênue. As portas das casas – ao todo 14, que representavam as estações (ou quadros!) da Paixão de Cristo - da avenida eram tomadas por uma espécie de altar, cortinas esvoaçantes, claras e, de uma delas, na esquina, grudada à Coletoria, iluminada por uma lâmpada esverdeada, havia uma mulher a cantar com “voz de ópera”. Era a personagem Verônica que a saudosa e inesquecível D.Pegy, esposa do sr. Zé Garcia, cabeleireira prestigiada na cidade- e a qual tive o prazer depois, já moça, de entregar minhas encaracoladíssimas madeixas aos seus cuidados - protagonizava lindamente. Me lembro- agarrada à calça cáqui de brim do meu pai - da minha emoção, do meu corpo grudado às pernas dele, do meu coração batendo descompassado querendo pular pra fora, dos meus olhos cheios d’água, da avenida fervilhando de gente em silêncio, de pessoas prostradas diante daquela mulher frágil de cabelos negros, figura diáfana... Lembro-me do monsenhor, dos sacristãos com roupas cor de vinho , da procissão, das rezas.
Ao meu lado, me lembro de senhoras vestidas de preto com mantilhas sobre as suas cabeças também da mesma cor, a chorarem em silêncio, a proferirem orações baixinho. Elas pareciam gigantescamente maiores que eu e muitas delas carregavam velas que, vez ou outra me faziam imaginar - ao olhar fixamente para elas enquanto queimavam -, a imagem de Jesus na cruz!
Quanta imaginação mora em uma criança...eu não deveria ter mais do que cinco anos!
E agora se “instala” em mim o cheiro de contrafilé na chapa me remetendo ao meu pai, ao Hemes Kiehl, ao Banjo (Bar) que calorosamente me acenam, dizendo “vem experimentar essa carne que tá uma delícia”! rsrsrsrs

Viajo através do tempo, dos cheiros, das cores, dos sabores e desperto pra minha realidade de mulher “madura” (rs) ..Saio lááááá de trás, de lindas recordações e me transporto para o HOJE - não menos lindo - feliz, muito feliz em reencontrar alguém muuuuito querido que veio me ver, depois de uns 17 anos e trouxe, dentre outros mimos, uma peça imensa de contrafilé para o meu filho fazer um churrasco com amigos!

Sim, recordar é viver. E viver é muuuuito bom! Bom demais! Uhuuu...