Rosana Blogueira

domingo, 18 de janeiro de 2015

O tempo é o principal maestro da vida






E
ste texto poderá servir  como réplica ( ou uma homenagem!)  aos desabafos ( e conjecturas) do meu filho, no  auge dos seus vinte e poucos anos.
(...)
“Talvez fosse melhor dizer  que os tempos são: o presente  do passado; o presente do presente; o presente do futuro.  E eles estão na alma: não os vejo em outro lugar. O presente do passado é a memória; o presente do presente  é a  percepção; o presente do futuro é a expectativa.”  Santo Agostinho
A citação acima, dentre tantas outras milhares de definições  sobre o tempo, é a minha favorita.  Sem falar das de Fernando Pessoa - mereceria um capítulo à parte-  que tão sabia e inteligentemente discorreu em suas poesias sobre a transitoriedade das coisas, sobre a passagem do tempo.
Cada um de nós carrega dentro de si certa noção e importância do tempo em suas vidas.  E cada qual tem a sua percepção do que significa a passagem dos anos na alma,  na memória, no corpo:  a consciência do tempo cronológico e do psicológico. Em algum momento nos deparamos com essa consciência quer seja na transformação física, em algum tipo  de limitação, nas dores;  quer seja nos questionamentos, nas respostas, nas incertezas, nas dúvidas, nas angústias, nas celebrações, nas ausências  e por aí vai...

“O tempo é o senhor da verdade” – quem já não ouviu essa frase e sentiu (ou vivenciou)  a carga (ou expectativa) que ela  carrega?
Há muito a se falar do tempo. Ainda mais nos tumultuados dias atuais, onde ele vale ouro já que a máxima - louvada com fervor -  é “viver intensamente cada momento, porque a vida é uma só.”
Como observadora que sou, percebo  nos mais próximos ( e também em mim!) o que ele, o tempo, tem feito - num conceito mais amplo - como agente transformador.
(...)
Há pessoas que endurecem com o passar dos anos e não mudam mais.
Para que o tempo “transforme” é preciso deixá-lo agir sobre nós.
A passagem do tempo me fez entoar a mesma canção, a minha canção de modo  diferente( ele modifica a  nossa ”voz”, entendida como a nossa expressão no mundo). Ele me fez menos ilusão e mais precisão. Ele me impulsionou a jogar fora algumas coisas, fez  nascer outras tantas.  Esse  tempo tem uma qualidade diferente, é um tempo de conexão. Não é um período em que fiquei de braços cruzados. Descobri que a raiz  da  palavra ofício é ophicium, termo agrícola para cuidar da terra. O tempo de conexão é isso: cultivar o que  quero que germine.
“Vi que o tempo trabalha sobre a árvore e ela vira  árvore”- disse o poeta.  E eu quero ser como uma árvore.

A relação com a temporalidade depende das fases da vida. Na primeira fase da vida, corremos junto com o tempo, não queremos que ele nos pegue. É como se  fôssemos os  primeiros da maratona: o tempo está no nosso  calcanhar e queremos vencer a prova. ..
Depois dos 40, 50 anos, deixei o tempo passar à minha frente. Não tenho mais medo dele e digo: Passa, tempo, passa, porque você me transforma e eu não fujo de você. Sei que meu tempo vai  acabar um dia. Então, parei de correr dele e comecei  a contemplar as experiências acumuladas. Nessa fase que me encontro, meu  grande objetivo é silenciar a mente para aguçar a percepção imediata. Acredito que as  pessoas que fazem isso envelhecem sem desespero e não dissimulam nada (nem escondem a idade! rsrs).  Elas são mais íntegras, dizem a verdade e têm uma sabedoria estável  da vida, já que se dispõem a prestar mais atenção a coisas, que para muitos, seriam irrelevantes; para essas pessoas, seria a motivação maior para uma grande transformação em suas vidas.
Mas sempre haverá  conflito permanente entre ação e contemplação;  a obsessão pela ação é inútil se não houver uma conexão. É o caso de quem fica atrás de muita diversão, ou mesmo de religião, ou  qualquer outra ação que a faça achar que “não está perdendo tempo”, achando que está fazendo alguma coisa - pois a ação, sabemos, é supervalorizada hoje em  dia.
No entanto, essa questão também tem a ver com a idade. Não acho que quem tem 20 anos deve passar o dia contemplando,mas quem tem mais de 40, 50 anos precisa encontrar tempo pra ficar quieto, prestar atenção, olhar o que acontece em  volta. Porque vivemos de uma maneira maluca, somos condicionados a nunca parar de acumular.  Juntamos de tudo: dinheiro, conhecimento, experiência, sons, doenças, palavras, marcas, traumas, mágoas...Chega uma hora em que temos que fazer a curva, começar a abrir a mão, jogar o que não serve, dispensar, delegar, priorizar. E também nos esvaziar de um monte de vozes, de discursos, de saberes.  Isso serviu pra me trazer até aqui, mas é preciso se abrir para outras percepções, já que  o acúmulo só atrapalha. Eu observava  minha pilha de coisas como se aquilo fosse a  minha vida...mas a vida não é só isso. Ao nos darmos conta disso, mudamos a inserção do tempo.
O grande desafio é lidar com o tempo que  temos, ter prontidão para agir agora. Deixamos de viver o  presente por estarmos muito apegados a um passado.  Se esse  passado foi muito melhor que o  nosso presente e, insistentemente, nos remetemos  a ele, o crescer pode ser difícil, um terreno até perigoso,  atravanca as melhores possibilidades de sermos mais felizes e, consequentemente,  nos blindamos de possíveis desafios gratificantes, edificantes, que forjariam um percurso promissor. Se o passado é pontilhado de agruras, sofrimentos, privações - e nos detivermos nisso - podemos nos tornar adultos com recalques de toda a sorte.  Ambas  situações  não  nos permitem renovar, seguir em frente. (...)

E há ainda aqueles ocupados em projetar e acumular coisas pra viverem num futuro ilusório, alimentando grandes expectativas sobre o amanhã, tão incerto.
É preciso que sejamos honestos conosco  mesmos  hoje, porque as mudanças acontecem agora.  Amanhã poderemos não ter a mesma chance. Se quero  fazer algo construtivo e amoroso, tem que ser já: esse é o antídoto para muitos possíveis sofrimentos.
Olho para uma foto minha – recente-, sobre a mesa, enquanto despejo palavras no PC.  Ainda me reconheço nela. Constato  que o tempo  até foi generoso comigo. Talvez porque eu não tenha sido adepta do “deixa a vida me levar!”-não sei.  Ou porque tive  a sorte de poder reverter o tempo  a meu favor, com todas as minhas limitações e possíveis dissabores.
Sei que o  tempo me fez adquirir uma certa, digamos, coragem, para enfrentar (e entender!) o óbvio: todos nós temos um prazo de validade. E a  única certeza que tenho é que tem valido a pena cada momento vivido.
Então encerro, meu  querido filho,  com mais uma  definição sobre o tempo, através do trecho de uma  canção  que adoro e que  reforça, em mim, a importância de viver apenas o presente muito bem vivido e seguir em frente, abastecida do bom passado.  Sem mais me deter em coisas que não podem voltar a ser  o que foram um dia ou que já não têm o  mesmo valor que um dia tiveram pra mim. E sem mais lutar contra o imutável: 
“Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre, sem saber que o pra sempre  sempre    acaba?” Renato Russo