Rosana Gimael Blogueira

domingo, 18 de janeiro de 2015


Pai e filho 

C
aminhava na areia, ouvindo música, apreciando as cores  do inverno.
Deparei-me com  Isaías e  Lucas. Pai e Filho. Nomes de profeta e apóstolo, respectivamente. Isaías, 35 anos. Pedro, 5 anos.  Nativos da praia.
Ambos estavam sentados na areia, à beira do mar em  silêncio; ambos entretidos na pescaria. Já os conheço. Lucas é um garoto adorável, perspicaz, sensível. Isaías é um rapaz sério, bem apresentável, mas duro,  muito rude com o filho.
Eu já havia presenciado  cenas entre os dois, em outras situações,  que me deixaram mal. E, a partir disso, comecei a arrumar pretextos para sempre estar por perto daquele lindo garotinho, com olhos grandes,  profundamente negros, sempre com o pulmão  trancadinho (olhem só, a tristeza, o medo, a angústia acumuladas!), falante, esperto, questionador – sempre “podado” pela jovem e bonita mãe e pelo carrancudo, também jovem  bonito  ( e bem-sucedido)  pai.  Filho único, não mimado e com uma educação extremamente rígida, isenta de qualquer  tipo de regalia ou docilidade.
O kardecismo, se não me equivoco aqui,  diz que antes de virmos a este plano, “escolhemos” nossos pais, nossa família. Existe uma passagem na bíblia da qual agora não saberia precisar – essa minha memória mais afetiva sempre me trai! - que diz  que a batalha é contra o próprio sangue. Ou seja, em outras palavras, é na própria família que temos o primeiro contato  com os sentimentos mais desencontrados, desde muito cedo: rejeição, inveja, ciúme, amor, desamor,  competição, rivalidade...verdadeiras provações. Acredito que qualquer religião, de maneira distinta, pregue a  evolução espiritual  do ser humano neste  plano.  De qualquer forma, isso pode   nos servir como   alento (conforto espiritual) ,  comodismo , amortecimento das dores, resignação, estagnação . Seja lá como for,  cada um de nós interpreta (ou prefere assim entender) como melhor lhe condiz, o sentido do seu existir, independente da crença que se tenha(ou não),  carregando  “a dor e a delícia de ser o que é”,  por escolha ou não.
Mas me reportando ao Lucas, eu,  então, desde que o conheci, não pude evitar o ímpeto(muitas vezes)  de estar  perto dele,   que sempre vem  ao meu encontro com  um baita sorrisão, bracinhos escancarados, se jogando nos meus braços e abraços,  demoradamente. Ele é forte, ele é muito especial.   Faço-o se esquecer  de suas dores e  ele me faz refletir sobre os sentimentos(sempre desencontrados) tão humanos e, especialmente, sobre a frágil, pra não dizer conturbada, relação entre pai e filho.
Em toda a minha vida, foram raros os momentos em que vivenciei  situações que traduziam verdadeiramente  uma relação afetiva vibrante, de companheirismo, de cumplicidade, amizade e amor “escancarados” entre pai e filho. Pelo contrário. Em muitas,observei  indiferença, frieza, permissividade, uma certa liberalidade, um  certo desconforto, um mal-estar constante entre eles. Pai sem conversar com filho, olho no olho; pai  presente sempre ausente; pai ausente, sempre ausente; pai sem atitudes ou exemplos coerentes...um total  desamor, homens  incapazes de darem afeto, carinho. Muitos deles,  violentos nas palavras, nas ações.  Muitos se empenhando  em lhes dar conforto material apenas. Outros, apenas se empenhando em cobrar  ou imporem respeito. Homens incapazes de amar....Pais que deixam lacunas “impreenchíveis” em seus filhos, para todo o  sempre.
Mas, agora, caminhando com meus cães meio que na clandestinidade, – já que na  praia e fora dela, aqui, eles não são bem-vindos – beeem  cedo e com  enorme “sombrero”, observo  os dois : pai calado, sisudo e  filho, agora tagarela, ambos em busca das tainhas. Tentei não me fazer notar, embora  quisesse congelar a linda imagem(os dois juntinhos diante da imensidão azul-turquesa) com uma fotografia.  Em vão. Lucas me “descobriu” e veio ao meu encontro aos gritos: “Rosanaaaaaaa, você aquiiiii, olha a minha conchinha”! E me abraçou com o mesmo calor  habitual,  prosseguindo ofegante - de novo, com o pulmão chiaaaaando!-  e extasiado: “Deixa  eu andar com você, com o Marrom e com a Princesa?”
O pai, Isaías, mais afastado,  me cumprimentou efusiva e educadamente, também sorrindo. Chamou a atenção do filho pelo “comportamento” dele.  Lucas retrucou  com um insistente “
 deixa, pai, deixa, deixa eu ir com eles, vai!” -  sem nenhum sucesso -,  no intento de convencê-lo a deixa-lo  caminhar comigo e abandonar a pescaria.  Nos  despedimos,  eu tentando contornar  a situação. Consegui acalmá-lo, combinando  passear com ele no próximo domingo...Momentos depois, ao retornar pelo mesmo caminho , eu os vi indo embora.  Lucas, aos prantos.  Isaías,  o  pai, conduzindo-o com safanões e severas palavras.
E eu, bem atrás, com a minha alma agoniada, coração espremido ( não tem como não me deter nas misérias do mundo, mesmo neste paraíso, hoje  glacial!) apenas  torço para que aquele  frágil menino seja  destemido o suficiente pra enfrentar tudo o que vem pela frente. E  que o profeta , munido de toda  a misericórdia, anuncie boas novas a seu apóstolo,  seu pequeno grande tesouro.
E sigo sonhando com uma revolução nas  tênues ( e tão soturnas)  relações entre pai e filho...