Rosana Blogueira

domingo, 11 de janeiro de 2015

..Família é sempre bonita em álbum de retrato

Família é sempre  bonita em álbum de retrato
O
 desânimo havia tomado conta, depois de ela ter perdido o celular, sofisticado, comprado a prestações. Depois veio a  avó, atazanando as suas ideias, falando  mal de sua mãe, comparando-a com ela, claro, com o    mais sombrio dela.  A avó sabia bem como transformar um dia possível em um dia impossível de se viver em harmonia , ao despejar as mágoas em relação à filha pra cima da neta.   Para completar, tinha visto o menino por quem se  interessava , de mãos dadas com outra garota.
É, o mar realmente não estava pra peixe. Mas ela tirou forças pra fazer o que tinha que ser feito, a tarefa que lhe cabia: lavar as suas roupas.
Sua mãe a abandonara e fora embora com um namorado bem mais novo. O pai, não o conheceu, morrera quando ela tinha dois anos de  idade...enfarte fulminante quando assistia a uma partida de decisão de  um clássico do futebol, FlaFlu. 
Tinha dez anos quando foi morar com os avós maternos, donos de uma mercearia.  Não podia reclamar da vida; a despeito da mãe e  das rabugices da avó, tinham uma vida até legal, moravam num bairro bom, perto da praia. Os conflitos existiam e nessa sua família, cercada de tios e primos, pôde conhecer sentimentos  diversos ...inveja, ciúme, rejeição, solidão, falsidade...algumas ciladas da vida, dentro da própria família.  Não guardava mágoa, carregava apenas  uma  certa tristeza na alma que ela conseguia driblar, ocupando-se  com coisas que lhe davam alegria, sempre!
Contava com  16 anos, cursava o Ensino Médio de manhã e três  tardes  por semana cuidava   de uma criança de 6 anos – adorava crianças!- , filha de uma amiga da avó. À noite, fazia cursinho para o vestibular, graças a uma bolsa da Prefeitura local – queria cursar  Comunicação. Sonhava sair da cidadezinha um dia, morar sozinha, ter  uma  outra vida. Queria ver outras coisas, descobrir o mundo. E, principalmente, sonhava,  um dia,  reencontrar a mãe.
Naquele dia, acordara  de mal com ela mesma. Cheia de espinhas, menstruada, cabelos horríveis.  Pensava ...um dia vou procurar  um  médico moderno, como  o tal  Eusimar Coutinho, vou ter dinheiro   suficiente pra não mais querer sangrar todos os meses...Ela ficou sabendo do tal médico, assistindo ao programa da Marília Gabriela, em cuja entrevista ele discorria sobre a técnica adotada por ele de interromper a menstruação e os benefícios para a mulher ao optar pelo  método:  uma vida muito mais saudável e feliz. A avó lhe dizia que não se  deve contrariar as leis da natureza, que isso não era de Deus  etc e tal.
 E ela continuava com os seus “planos” que também incluíam uma ida a uma dermatologista famosa, a tal Villarinho, de São Paulo.
Aí, sim, estaria pronta pra  abafar...livre das “regras “ – e de uma gravidez indesejada -, da acne, da caspa, dos cabelos sem um bom corte...e se tornaria uma diva, pronta pra arrasar junto a um “boy magia”, cheio de encantos, paparicos, um príncipe montado na grana.

Mais pra frente, talvez passasse por uma lipo pra eliminar o pneuzinho  que insistia em sair pra fora do jeans de cintura baixa, quase no quadril.
Agora, enquanto estendia as  roupas ,naquela  tarde de sol quente e vento nordeste, imaginava lindas roupas novas substituindo as suas, feitas por sua avó, também exímia costureira, porém de gosto aposto ao dela ...um diploma, um bom trabalho, pequenos luxos, sua independência financeira, baladas nas noites quentes da capital...
Um assovio vindo do portão a desconcentrara dos seus devaneios. William, o colega de cursinho, chamava-a insistentemente para a realidade. Moço lindo, dentes de artista, corpo de Apolo,  de família boa, inteligente,  perfeito pra ela não fosse ele gay. Poderia ser um ótimo amigo, apenas. Vinha abraçado a um livro, *De Profundis, de um tal Oscar Wilde. Ela quis perguntar o significado do título , mas achou irrelevante naquele momento, mesmo por que ele iria divagar e divagar e desconcentrá-la de sonhar. O propósito da sua vinda até a casa dela era convidá-la pra uma palestra sobre Sustentabilidade, sugerido por uma professora de Ciências...eles tinham que se inteirar  sobre os possíveis temas mais abrangentes das provas discursivas do Vestibular. Daria resposta a ele logo mais...
Ele a elogiou, achara-a mais  bonita...ela relevou. Pra ela,  o elogio dele não servia  pra “engordar” a sua autoestima.
Despediu-se, retornando ao quintal. Acabara a tarefa.  Pegou a mangueira de água pra se refrescar do calorão.

Deu ração à cadela  Fany, com a qual brincou por alguns momentos, colocou o CD da sua Amy ...dançou  frente ao espelho da sala a música Valerie,  a sua preferida, por  bons e longos momentos e viajou. Viajou, sonhando sonhos possíveis pra ela.
Não pensava agora  no garoto que um dia gostou muito, na “pegação de pé” da  avó, no celular perdido..pensava apenas em  aproveitar cada momento pela frente.
Olhou para o retrato da mãe na estante. Como era linda! Como era diferente da mãe! Admirava a coragem dela. Não guardava mágoas, mas sentia uma falta  imensa daquela mulher ...na maneira que penteava os seus cabelos, nos afagos, no jeito que a mãe a olhava, na voz  dela, terna,  a contar-lhe  histórias, no bolinho de arroz que só ela sabia fazer, no bolo de chocolate cheiiinho de granulados todo santo domingo, sobre o fogão.
Na foto, a mãe  sorria, envolvida pelos avós, por ela, pelos tios. Usava um vestido de renda branca, o mesmo  vestido  quando a viu pela última vez e dela recebeu um longo e envolvente abraço.
Dolorida lembrança. Apenas pensava...Família é sempre bonita em álbum de retrato. Virou a foto pra baixo, saiu da sala e voltou para o quintal. Queria surfar, não podia. Tinha uma vontade imensa  agora de pegar o tabletão de chocolate  bem guardado ( escondido!) e devorá-lo, mas lembrou-se das espinhas e do pneu na cintura. Freou bravamente os impulsos.
Olhou pra longe, avistou a imensidão do céu anil, o horizonte de sonho, pegou uma manga do pé e disparou a  correr atrás da Fany, a sua melhor companheira, a amiga de todas as horas.
Deletou a tristeza, afugentando qualquer tipo de  mau sentimento.  E apenas disse a si mesma que se ocuparia em ser feliz. 


*De Profundis é o título de uma obra de Oscar Wilde, escritor irlandês, de 1897, que toma a forma de uma longa e emocional epístola épica ao seu amante Alfred Douglas, escrita na prisão de Reading, onde cumpria pena de prisão por comportamento indecente e sodomia.