Rosana Blogueira

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015




"A dor e a delícia de ser o que somos"

E
screvo por compulsão.  Não “premedito” temas. Palavras  se esvaem  de mim feito sangue vertendo das artérias. É uma necessidade. Um vício. Para os que me cercam, acreditam ser um dom.
Os pensamentos fluem em redemoinhos. Escrita automática. Na maioria das vezes, me sinto teleguiada por uma força que  não a reconheço  em mim. Não penso, me inspiro. Há  apenas um desejo de  traduzir  sensações em palavras. Nesses momentos, não  tenho uma preocupação formal excessiva , nem  a pretensão de  me fazer entender. 
Reside em mim um universo borbulhante que se origina de  minhas meras observações, de um exercício diário das minhas viagens dentro de mim, em busca de mim mesma. Muitas vezes me desconecto da realidade que me cerca; outras,  apenas registro  impressões do cotidiano. Sensações se instalam, sem pedirem  licença, dentro de mim.
 Gosto da sonoridade das palavras bem como amo a linguagem musical. Desde o solfejo a uma bela partitura. Dediquei-me ao piano durante quase duas décadas de minha  vida, sistematicamente três horas por dia, cinco vezes por semana...deixei de tocá-lo desde  que meu pai se foi.
Às vezes, uma música – como esta que ecoa aqui, agora,Tudo Azul, de Lulu Santos  - me faz  quase levitar, me transporta  pra um emaranhado de sentimentos...palavras “musicadas”  funcionam, pra mim, como um ansiolítico tarja branca (?!).  A música( a boa música!) é um flutuar de palavras dançantes que acalenta o nosso espírito, que nos remete ao divino, pra quem tem ouvidos predispostos a ouvirem (e “sentirem”) tal conexão.
Escrevo pra exorcizar coisas dentro de mim, pra domesticar certos devaneios...porém, eles insistem  em emergir de mim, de forma abrupta.
Influências tive, de toda a sorte, desde muito cedo, para a escrita, para a leitura. Debruçava-me sobre os livros e , através deles , pude mergulhar em  fantásticas viagens e aventuras, desvendando o mundo, um universo ilimitado de prazer, de descobertas, de entendimento... E pra quem, então, se sente um peixe fora d’água ou não tão bonito, torna-se mister  ter uma válvula de escape, um refúgio. E os livros me proporcionaram isso...sempre. Aos que não têm o hábito, vício ou o prazer de “degustar” uma boa leitura, muitas vezes, entendem refúgio como fuga.
Não sou da época do “ser diferente é normal”, sou  da época do  “tirar sarro” permanentemente – hoje se diz bullying. Como logo cedo percebi que não correspondia aos padrões de beleza vigentes, tive que criar “mecanismos” pra lidar  com possíveis frustrações ou limitações; já que eu não herdara a beleza, teria que ser, no mínimo, interessante...a mais interessante.
E tirei das letras (de letra!)  subsídios pra me autopreservar.  Bem mais tarde, vim a entender que isso me serviu como um meio de superação.
Me encanta a personagem central das Mil e uma Noites- Sherazade -, sábia contadora de histórias, que soube conquistar a confiança(e o amor!) de seu  algoz . Ela escapara de ser morta por um rei, entretendo-o com as suas longas narrativas, pausando noite a noite o término de cada uma delas. Ele fora supostamente traído pelas demais esposas e resolvera se vingar  de outras possíveis pretendentes, levando-as  à morte, logo na noite de núpcias. Sucumbiu à “magia” de Sherazade, apaixonou-se por ela, pela  habilidade dela  (o dom do encantamento das palavras!) na arte de contar histórias,imaginativamente criadas por ela. E ela conseguiu escapar da morte.
Eu também soube  driblar os percalços da vida com as palavras, estrategicamente bem colocadas em momentos e situações iminentemente convenientes ou deveras necessárias pra mim ou para pessoas próximas de mim.
E também sempre foquei o meu objetivo: dominar  a  arte (ou seria a magia?) de colocar  as palavras como meu trunfo pra alçar voo,  instigando a minha imaginação para  dialogar com o mundo...E com elas e através delas, as palavras, pude ter a vida que sempre quis ter, a que corresponde ao meu estilo, a minha essência, a minha leitura de mundo. Elas me facilitaram na aproximação de pessoas, de amores ( ah, o poder de sedução das palavras!), abriram portas para o trabalho, para que abraçasse  a minha profissão. Não bastava apenas conhecê-las, criar  uma certa intimidade, uma certa cumplicidade com elas. Eu teria que brincar com elas, usar a imaginação pra fazer voarem e voarem até o alvo.
Afinal, não era Einstein  que apregoava que “a imaginação é mais importante que o conhecimento”?
Bem sei que o conhecimento é uma  potente  ferramenta  de libertação, afugentando a alienação,  poder ilimitado. Mas a imaginação, embora ilimitada também, é a ferramenta básica de sobrevivência, abre portas pra liberdade.
Então, como desde jovem eu pressentira  o que viria ( e veria!) pela frente por não corresponder a certas expectativas, a certos padrões impostos, soube bem como me “blindar”, me preparando pra vencer os desafios, sempre através do que melhor sabia fazer: lidar com as palavras.
Cada um carrega dentro de si um dom, a sua varinha de condão, a sua poção mágica . Muitos não se utilizam  desse, digamos, precioso poder; não conseguem se “apropriar” dele...  não conseguem  enxergar o potencial que carregam dentro de si. Passam a vida almejando ser o que nunca poderão ser, não se aceitando, não aceitando o que a vida lhes apresenta...não superam os desafios impostos por ela.  Ou passam a vida desejando  ter a vida do outro.
É  comum encontrar pessoas a minha volta que costumam  lamentar  a própria sorte e não encontram  forças pra sobreviver às contingências da vida; deixam os complexos ou os supostos insucessos dominarem suas vidas.
Desconhecem o dom que têm e, se o conhecem, não conseguem dele se apropriar e utilizá-lo a seu favor ou a favor de outras pessoas. Muitos, quando o descobrem, não sabem o que fazer com ele.  (....)
E  agora, no “ tecer” das  palavras , na calada da noite, ao me encontrar comigo mesma, me deparo com o outro que se identifica com o que sinto, com o que penso, com o que compartilho. Nem sempre  sou concisa...viajando nas palavras, dançando com elas, me perdendo delas, me reencontrando com elas.
Isso me preenche de forma grandiosa. Isso me dá uma sensação boa...muito boa.
E me faz conectada não só com elas, as palavras,  mas com as pessoas a minha volta.
Mesmo que seja assim, de forma virtual...uau!!!!!