Rosana Blogueira

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

AH, as mulheres...


Mulheres inteligentes são complicadas demais?
L
uísa  cursava o último ano de Arquitetura. Tinha poucos atrativos físicos, mas era culta, extremamente culta. Os pais vieram de uma família abastada. A mãe era artista plástica; o pai, professor de História da Arte, em uma universidade conhecida; nas horas de lazer era um músico que transitava entre o  jazz e  o blues ...era um virtuose!

Seus ouvidos foram treinados a ouvirem boa música, da clássica ao rock ; por influência dos pais,  flertava  com a MPB e, claro, com o jazz e o blues. Lia Kafka, contemplava Dalí, consumia Godard. Filha única, desde sempre fora criada cercada de conforto, viajara pelo mundo, fizera alguns intercâmbios culturais, o que lhe rendera fluência em quatro idiomas. Tivera acesso a uma educação diferenciada, à prática de esportes também diferenciados - tênis, turfe e esgrima. Tinha poucos amigos e “ pais-cabeça “ dos quais se orgulhava em tê-los como seus progenitores e  melhores amigos.
No barzinho frequentado por universitários, Luísa fora cercada , em certa  noite, por Pedro, um rapaz sem atributos físicos como ela. 
Ele era considerado “o burro” na turma da  Engenharia Civil.  Fora reprovado e carregava várias dependências do curso. Ele sempre a admirava de longe...gostava do  jeito dela com as pessoas a sua volta, do seu porte  que, segundo ele, lembrava o de uma rainha. Mas nunca tivera chances de dela se aproximar. Pensava sempre em Luísa, tinha fantasias com ela, tinha-a como musa inspiradora nos momentos mais solitários , longe dos seus, da sua Goiânia querida. Noites em claro ao som de pagode, de sertanejo. Pedro pensava  em Luísa, desejando imensamente aquela garota de quase 1,80m, porte de rainha, uma “ nerd “em potencial.

Mas o  "amor" consegue ser destemidamente desbravador quando quer..

Ele se dedicou tanto quanto pôde a “estudar” todas as preferências e gostos de Luísa, articulando  todas as possibilidades de chegar  a ela e, apesar de terem  colegas em comum, ela lhe parecia inacessível. Foi assim durante meses, até aquela noite, graças a esses  colegas que lhe  disseram onde a encontraria às sextas-feiras.
 Ele , o caçula de quatro  irmãos, vinha de uma família de emergentes; o pai era empresário  do ramo agropecuário. A mãe dedicava-se aos filhos e ao lar; ambos tinham uma vida  voltada mais para o consumismo e não priorizavam uma vida movida à cultura ou coisa    assim.  A família inteira,  dos dois  lados dos pais,  se fez  na lavoura.
(...)
 Mas, voltando àquela certa noite....Ela encontrava-se sozinha ali naquele barzinho,  junto ao  balcão. Ele encheu o peito de ar,  aproximou-se com um andar  meticulosamente calculado  e, incorporando um ar distraído,  criou coragem pedindo  um "capeta de abacaxi "e, após a  bebida, disparou:
- Este ambiente está abafado, me remete aos contos góticos de Castro Alves!
- Como assim , góticos?
-  Digo: este lugar. Abafado. Navio Negreiro.
- Navio Negreiro? Se voltando para o rapaz, pega de surpresa com a comparação, no mínimo, inusitada no que se referia ao autor romântico nacionalista como “gótico”.
- Uhum! Abafado como o Navio Negreiro do gótico Castro Alves,reforça ele.
-Ah – um “ah” de quem entendeu. 
 Muito bem! Ela fora receptiva, ponto pra ele.
 E ele:
_ Só faltam as correntes pra eu me sentir como os escravos – brinca...uma nova alusão ao livro.
- É, responde ela desanimadoramente monossilábica.
 E então se fez o silêncio. Ele esperava que ela alavancasse algum comentário que o      estimulasse a continuar conversando, que fugisse das interjeições desestimuladoras. 
 Mas o "amor"  consegue ser cegamente persistente quando quer. Por isso, espera, ainda  paciente, uma “deixa”.
 A música ambiente, algum jazz que ele desconhece – o que não é de surpreender –  preenche o silêncio. Ele suspira, arrematando:
- Play it again, Sam!
  Ela sorri. Outro ponto positivo.
- Também gosto de  Casablanca – ela.
- Assisti três vezes- responde ele.
- Três?
- Essa semana.
- Puxa! Eu nem tanto, a esse ponto. – E novamente o silêncio.
 Ela discorda. Ponto negativo. E ainda por cima, aquele silêncio dela... Ele precisava  continuar o assunto que conseguiu arrancar-lhe um sorriso. Mas falar o quê? Nunca        assistira  ao filme Casablanca em toda sua vida. Andou sondando no Google, mas não se        lembrava dos detalhes do filme. Queria impressioná-la. Então, recomeça:
- Pobre Scarlett O´Hara – arrisca.
- Como? – Ela ri. – Scarlett O´Hara em Casablanca?
  Suava em bicas agora e, apressando-se em responder:
- Refiro-me ao próximo vídeo que irei rever...E o Vento Levou… quarta vez essa semana. Só de lembrar o que a pobre Scarlett vai passar, fico emocionado.
- Sério? Costuma chorar nos filmes?
- Até com  George Chaplin.
- Quem?
Dados cruzados. Simplifique. Simplifique. Silêncio brutal...ela retoma:
- Hãã… Chaplin, o vagabundo.
- Ah, sim. Ele tempera as piadas com as lágrimas. Mas nada como um Freddie Mercury depois.
 - Hum… Boa pedida. Mas quer uma sugestão?  Prefira  Smiths.
- Sim, um som eletrônico é uma ótima sugestão.
-The  Smiths,  eletrônico?
 Hããã?...suor de novo, em abundância...Que inferno é esse Smiths? Will Smiths?      Reorganize...
-É  que o Rap tem algo de eletrônico.
-Rap??!!! The Smiths é rock!
- Rock? Sim. Foi o que eu disse. RAP. “Rock to Alternative People”. Um movimento musical  ocorrido nos guetos londrinos, iniciado nos anos noventa.
- Smiths nos anos noventa? – rindo.
 Besta. Por que não colocou ponto final depois de “londrinos”? Agora se joga.
- Hãã… bem… É que talvez você não tenha ouvido a demo que lançaram na década de noventa, antes de estourarem nos anos dois mil.
- Anos dois mil? – ela, quase gargalhando.
 Ele pigarreia, embaraçado. Quase entregue. Quase… Mas o amor consegue ser    insensivelmente cara-de-pau quando quer.
Me desculpe. Estou um pouco confuso, qualquer um ficaria assim  depois de contemplar Rembrandt por duas horas...
Ela, surpresa e animada:
- Você gosta de Rembrandt? Não acredito! Eu amo Rembrandt. Amo, amo, amo. Me diga: qual seu quadro preferido?
Seu anta, e agora? Confusão total...La Gioconda, Sagrada Família, O Grito,  A moça...Meu Deus, tô ferrado!
Ele, responde,  evasivo:
- Prefiro aquela fase após ele cortar a própria orelha.
- Mas quem cortou a orelha foi Van Gogh.
- É… Então… Pra ser bem sincero, estou começando agora a apreciar os pintores italianos.
- Italiano? – Rindo de novo. – Mas ele  era holandês!
- Era? Mas isso era o que se acreditava no século 15.
- Mas Rembrandt viveu no  século 17!
- Cheeeeeegaaaaa- grita.
 Sai furioso daquele lugar, sem olhar para trás, deixando a garota sozinha, que ria sem parar.
 Entrou na Tucson prata novinha, novinha - presente do pai . Colocou Gustavo Lima pra  ouvir e saiu cantando pneus, buzinando pra uma linda loirinha ali ,na outra esquina, em  frente a  outro bar, que dançava sensualmente - sob a mira de olhares libidinosos, calorosos  aplausos  e “fiufius” - , embalada pela música “ela não anda, ela desfila...ela é top, capa de  revista”” ,  vinda de uma caminhonete potente.
 Parou ali  sob o pretexto de tomar uma “cerva”  e se esquecer do “mico”  da noite.
 E tendo uma única certeza: Mulheres inteligentes são complicadas demais. Decididamente  não servem para ele!
 E ali, naquela esquina movimentada, ele se  jogou, sentindo-se  pertencido ao seu  mundo,  ao seu meio. E riu muito, divertindo-se madrugada afora, esquecendo-se de tudo nos braços  de outra menina -  bem mais acessível e receptiva a aos seus anseios,  aos seus apelos.