Rosana Gimael Blogueira

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015




A vida e seus mistérios

D
e repente, as luzes se apagaram. O silêncio tomara conta de tudo. Os risos cessaram. A música parara de tocar.As vozes se acentuaram. Nada mais interessava a ela. Nada mais fazia sentido. Nada mais se fazia necessário naquele momento. Apenas o sussurrar das palavras, apenas o encontrar das bocas fazia sentido, o cheiro da pele, o grudar de corpos embalados pela emoção, pelos sentimentos represados há anos.
Há vinte anos se toparam. Ela aos 30, ele aos 20. Ele, um rapaz da periferia, estudioso, muito bem-nascido e educado, refinado;  ela,  apenas uma mãe de primeira viagem, separada e, subitamente tomada de paixão por ele. Tiveram um relacionamento interessante durante três anos...ele apresentou a ela Camus, Proust, Allan Poe, sob os acordes de um violão, entoando Ramones, Rolling Stones,Beatles, Renato Russo, Chico Buarque, Roberto Carlos  até altas horas, sob  luar, sob sóis de verão, sob edredons nas frias noites das montanhas..escreviam-se compulsivamente poesias apaixonantes ( e apaixonadas!)...até um dia em que ele  se fora para estudar Direito, em uma Universidade pública longe, bem longe dela.
O tempo passou. Não tiveram mais contato. Ele fora louco por ela, ela o amou  com intensidade descomunal. Ela tivera outros homens; ele se casara, ficara viúvo, casara-se-se novamente, não deu certo o relacionamento...Ele se tornou  juiz; ela, uma psicóloga renomada.
Alguns anos se passaram, ele a procurou. Ela não morava mais na cidade. Ela havia se casado novamente. Logo depois, descasou-se. Perderam contato.
Hoje, sob forte chuva, num pub, se toparam...fluiram algumas palavras vãs, olhares faiscantes, pupilas dilatadas pela emoção...nada precisaram dizer e, apesar do cessar da energia de súbito, nada à volta deles atrapalharia aquele momento, nada os afastaria da doce e linda artimanha do destino.
A vida tem seus mistérios mesmo. Ela realmente não contava com esse encontro, para ela seria algo quase milagroso. Nunca o esquecera. Ele sempre a amou, com a mesma intensidade de menino, com a maturidade de um homem que sabe a que veio...
Todos os sentimentos represados vieram à tona...e o que virá depois?
Bem, pra que pensar no depois, se a vida são apenas momentos tão fugazes neste presente, o nosso hoje?
(...)
Mas ...depois, depois e depois eu conto!