Rosana Gimael Blogueira

quarta-feira, 1 de julho de 2015

E, você, como gostaria de ser lembrado (a)?


Dia desses, em meio a uma miscelânea de informações, imagens e notícias fakes, deparei-me com um teste do Face do tipo “como vc será lembrado quando não mais fizer parte deste plano”. A princípio, ri muito com o resultado; depois refleti sobre isso. Ressoaram-me as palavras da minha avó : “ Para morrer, basta estar vivo.” Quando menina, isso me soava assombroso por demais. Mas a verdade é que...para morrer, basta estar vivo!rsrs.

Então, me lembrei dos meus tours com a monareta, minha primeira bicicleta, quase sempre pela manhã, na avenida da Saudade – na época, quase sempre vazia e não pavimentada,- que terminavam, muitas vezes, em visitas ao cemitério da minha querida cidade-universo, Cosmópolis.
Eu achava o máximo a quietude daquele lugar - para muitos - sombrio.Também causava-me um abismal estranhamento o “ final de tudo”. Eu achava muito doido como tudo poderia terminar ali.
E me questionava por que tínhamos que morrer se a vida era tão deliciosa de ser vivida. Naquela época, povoavam em meus pensamentos as aulas de literatura do GEPAN, ministradas por Mestras inspiradoras: Doraci, Ingeborg,Verinha. Elas me apresentavam autores que me marcariam para sempre e, muitos deles, viriam calar certos vãos questionamentos na minha vida, quando já adulta - Machado de Assis com “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e Álvares de Azevedo com “Lira dos Vinte Anos” me acompanharam por um tempo em minhas divagações acerca da transitoriedade da vida, dentre outras coisas que inquietam a alma da gente.

Entre túmulos, cheiro de velas, cruzeiros e canteiros ressequidos eu ia andando e mirando as lápides que me despertavam a curiosidade por informações sobre o que o morto tinha sido em vida- além de um ou outro versículo bíblico ou a palavra SAUDADES ETERNAS, como *Epitáfio.
Uma certa vez, encontrei um deles em uma lápide que me chamou a atenção pela simplicidade das palavras: “Aqui jaz um profissional exemplar, marido dedicado e pai amoroso”.
Pois bem, dizem que a grandeza de um homem só pode ser medida após sua morte, quando ,então, suas “obras” podem ser consideradas definitivamente completas. É quando o livro termina e pode, afinal, ser lido.

Talvez o verdadeiro sentido da vida seja o de vivermos com o objetivo de termos o melhor epitáfio que pudermos ter em nossa lápide. A cada dia de nossa existência, deveríamos trabalhar na criação do nosso próprio epitáfio, a ser utilizado no derradeiro dia. E, durante a vida, fazer dele a diretriz para todas as nossas ações.

Bem, o verso de Álvares de Azevedo “Foi poeta - sonhou - e amou na vida” tem mais a ver comigo se eu optasse por ter um epitáfio.Talvez acrescentasse: “Aqui jaz alguém que viveu intensamente cada momento como se fosse o último”. A verdade é que, segundo minha vontade, serei cremada - depois de meus órgãos serem doados - e minhas cinzas serão lançadas, claro, ao mar...ao sabor, som e dança de suas ondas.

A propósito, dada a fugacidade da vida, um certo discernimento junto a uma certa maturidade, eu vivo o Hoje e procuro colocar em prática o “ É preciso amar as pessoas como se não houvesse o amanhã” . Não penso na morte, já não tenho crises existenciais, mas vez ou outra ainda visito cemitérios. O último visitado foi o dos Pássaros, na Ilha de Paquetá - único no Brasil. Há, ali, estátuas, monumentos de aves. Mas não há epitáfios. Rsrs
Então, como vc gostaria de ser lembrado(a)? Qual poderia ser seu epitáfio?
*Epitáfio- do grego, “sobre o túmulo”- são essas frases escritas geralmente sobre placas (lápides) de mármore ou metal, com a finalidade de homenagear o morto sepultado naquele local.
(...)
Abaixo, seguem alguns epitáfios interessantes...

O epitáfio de Martin Luther King, por exemplo,  um dos mais importantes líderes dos movimentos pelos direitos civis dos negros nos EUA, o que lutou contra a discriminação racial até a sua fatídica e precoce morte diz: “Livre finalmente,/ Livre finalmente,/ Obrigado Deus Todo-poderoso,/ Eu estou livre finalmente."

"Vejo você na próxima vida. Não se atrase ." Jimi Hendrix

"Disse o corvo, 'Nunca mais'."Allan Poe, em alusão ao seus célebres versos, retirados de sua obra mais famosa, o poema “O Corvo”.

O “túmulo simbólico” de Freddie Mercury também tem uma das mais famosas epitáfios de estrelas do rock. Em uma estátua situada perto do lugar onde suas cinzas foram lançadas, diz o seguinte: ". Amante da vida, o cantor de canções".

"E lágrimas desconhecidas encherão para ele/ a urna da Compaixão, há muito trincada./ Pois quem o pranteia são homens proscritos/ e esses choram sempre." Oscar Wilde, transcrição dos versos finais do capítulo IV da Balada do cárcere de Reading.

Veja mais em:
Epitáfios de famosos
Inspiração para seu epitáfio
Epitáfios engraçados


FILOSOFIA DOS EPITÁFIOS
(Machado de Assis-Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Saí, afastando-me dos grupos, e fingindo ler os epitáfios. E, aliás, gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Daí vem, talvez, a tristeza inconsolável dos que sabem os seus mortos na vala comum; parece-lhes que a podridão anônima os alcança a eles mesmos.
Cemitério dos pássaros-Ilha de Paquetá-RJ  

EPITÁFIO
(Álvares de Azevedo – Lira dos Vinte Anos)

Perdão, meu Deus, se a túnica da vida...
Insano profanei-a nos amores!
Se da c'roa dos sonhos perfumados
Eu próprio desfolhei as róseas flores!

No vaso impuro corrompeu-se o néctar,
A argila da existência desbotou-me...
O sol de tua gloria abriu-me as pálpebras,
Da nódoa das paixões purificou-me!

E quantos sonhos na ilusão da vida!
Quanta esperança no futuro ainda!
Tudo calou-se pela noite eterna...
E eu vago errante e só na treva infinda...

Alma em fogo, sedenta de infinito,
Num mundo de visões o vôo abrindo,
Como o vento do mar no céu noturno
Entre as nuvens de Deus passei dormindo!

A vida é noite! o sol tem véu de sangue...
Tateia a sombra a geração descrida!...
Acorda-te, mortal! é no sepulcro
Que a larva humana se desperta à vida!

Quando as harpas do peito a morte estala,
Um treno de pavor soluça e voa...
E a nota divinal que rompe as fibras


Nas dulias angélicas ecoa!