Rosana Blogueira

terça-feira, 28 de julho de 2015

TOADA (IN)CERTA

Se eu partisse hoje
Deixaria algumas pendências
Não poderia ir  em paz .
Se eu partisse hoje
Seguiria sob  sons  de  Gardel  Paco de Lucia  Chopin
Não seguiria  desapegada
De  “amores com seus tremores”.
Se eu partisse hoje
Ao chegar a destino (in)certo
Tentaria negociar com o Divino
Pediria mais um tempo
Pra  poder ouvir todas as músicas que não deu tempo de ouvir
Pra poder beijar mais uma centena de vezes 
A  boca de alguém  que mais desejei
Em  madrugada fria
Em tarde de sol escaldante
Em  amanhecer de cantos nobres
Em noite de lua cheia.
Sentiria muita falta de minhas  incursões
Em sons leituras degustações
Se eu partisse hoje.
Não poderia seguir contente
Sem ter tido tempo pra  velejar
Por outros mares
Nem ter dançado a última dança
Com um certo alguém  que me faria levitar
E sonhar sonhos deliciosamente loucos...
Não poderia seguir feliz
Sem me despedir triunfalmente
Dos meus anjos de quatro patas.
Se eu partisse hoje
Seguiria indolente
E daria trabalho
Aos que por ventura me recebessem de braços abertos
No destino (in)certo.

Se eu fosse de repente
Sem  direito à  escolha
Seria  tragada pelas ondas do mar
E todos ficariam  na dúvida-morreu não morreu?
Se eu partisse  hoje
Iria angustiada
Sem minha alma –par.
Mas iria  realizada
Pelo  tesouro deixado na Terra
Meu legado maior
O melhor de mim: meu filho.
Se eu partisse hoje
Deixaria escritos
Alguns livres por aí
Outros calados  em arquivos.
Se eu tivesse que partir hoje
Teria a única certeza de que
Nunca desisti de amar
Nem de ter fé
Nem de acreditar nas pessoas
E na  vida.
Se eu partisse hoje
Seria depois de ter ouvido
Pingos de amor pela centésima vez com “Papas da Língua”
Com alguém pra lá de especial!
Se eu fosse de repente
Iria plena de  boas coisas
Que a vida me presenteou
Mas iria com a sensação de “quero mais”
Muito mais.
Porque é bom demais viver e sentir tantas coisas legais
E é  judiação demais partir
Sem saber se há coisa melhor por lá
No destino (in)certo!

Se eu partisse hoje
Talvez  tivesse um certo burburinho
Em redes sociais
Quem sabe até lindas mensagens
Desejando que eu fosse em paz
E  algumas horas depois
Tudo voltaria ao “normal”...
Porque a vida urge
A vida segue
Porque assim  é!
Se eu fosse sem tempo pra despedidas
Pediria apenas que
As pessoas se lembrassem  de mim
Em dias luminosos
Em noites enluaradas
Ritmados por lindas canções que traduzissem  
Um sentimento maior
E o barulho das ondas – hoje -de ressaca
Traduziria
A   minha teimosia
Em  não ter querido partir.