Rosana Blogueira

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

E, com vocês, o genial "trovador", Zé Ramalho!

Show em Garopaba-SC em 2013
Era exatamente meia-noite quando pisei naquele recinto, sob um frio ártico, garoa fina e a  estridente  voz do locutor  anunciando:  Com vocês, Zééééééée´ Ramalhooooooooo!!!!!
Uauuu! Cheguei na hora, sem nenhum contratempo, vaga perfeita para o carro, multidão civilizadíssima - coisas do sul? E, de repente, cessou a chuvinha besta.
Já havia ido a dois shows dele. O de S. Thomé foi surreal, tamanha a energia que dele emanou e se espalhou pela multidão.  Não perderia esse por nada. Amo esse homem,  cujas canções me embalaram as tardes em Cosmópolis quando, das janelas envidraçadas da casa de minha mãe, eu mirava o Morro Castanho, sonhando com  novos horizontes, decifrando as letras de suas músicas, imaginando no que este homem se inspirava pra dizer o que dizia...Beeeem depois vim a saber. Mas isso fica pra uma próxima crônica!
E ali estava ele, um  nordestino desprovido de uma bela estampa, mas com um carisma descomunal,  elegante em todos os sentidos. E  ali, no gargarejo, estava eu e Zeus, cantando e dançando todas as suas (16)  músicas, sendo abduzidos  pra outras galáxias, viajando em e com as suas melodias.
“Rebuscando a consciência, com medo de viajar, vejo um velho cruzar a soleira de barbas longas: é o meu velho e indivisível  Avorai...avô e pai. São  os olhos, são as asas de Avorai”, mas poderiam ser do meu querido vô NATO – sem as barbas longas - que tão sabiamente nos conduzia a novas descobertas, nos lindos tempos de Cosmos.
“Eu desço dessa solidão e espalho coisas sobre o chão de giz, há meros devaneios tolos a me torturar... eu vou te jogar num pano de guardar confetes”... e lá vêm  amores represados, sufocados, mal vividos, não correspondidos.
“Eu entendo a noite como um   oceano que banha de sombras um mundo de sol, aurora que luta por um arrebol de cores vibrantes e ar soberano...  além, muito além do que quero chegar caindo a noite me lanço  no mundo, além do limite do vale profundo que sempre começa na beira do mar”...sempre o mar, feito esfinge,  pronto pra ser decifrado ou nos devorar.
“Ah, eu não sei se eram os antigos que diziam em seus  papiros que nas torturas toda carne  se trai”...as torturas que as engenhosas paixões(tão irracionais) nos trazem e os sorrateiros trancos do destino para os que não conseguem suportá-los (ou superá-los!).
“Foi um tempo  que o tempo não  esquece ...que os trovões  eram roucos de se ouvir e  todo o céu  começou a se abrir numa fenda de fogo” ...  pode  nos remeter  à busca incansável da espiritualidade. “E o poeta inicia a sua prece, escrevendo seus  novos mandamentos na fronteira de um mundo alucinado, cavalgando agalopado e viajando com loucos pensamentos” ...e lá  vamos nós, viajantes, em uma profusão de dúvidas que balançam nossas crenças, que nos  reforçam as iminentes crises existenciais.
“Sete vezes eu me ajoelhei  na presença de um ser iluminado, como um cego fiquei tão ofuscado ante o brilho dos olhos que  olhei...mas a mente talvez não me atenda, então eu prefiro um galope soberano à loucura do mundo me entregar” ...vai consolidando minhas impressões sobre o mundo e descortinando  as janelas da alma.
“Acho bem mais do  que pedras na mão dos que vivem calados, pendurados no tempo, esquecendo os momentos, na  fondura do poço, na garganta do fosso, na voz do cantador ...e virá como guerra a terceira mensagem e na cabeça do homem, aflição e coragem...afastado da Terra,  ele pensa na fera que o começa a devorar”...E, então, incorporo  o verbo, me aproprio da Palavra, me jogo no Apocalipse.
“E se o teu amigo, o vento,   não  te procurar é por que multidões ele foi arrastar”...e, romântica que sou, à procura dele  pra sentir o rosto açoitado por ele, o vento, que tudo arrasta, que tudo traga, que revira cabelos e pensamentos.
“Baby ,  dê- me o seu relógio que eu quero saber quanto tempo falta pra eu lhe  esquecer ...baby, nossa relação acaba-se assim  como um caramelo que  chega se ao fim” ...  estabelece a intensidade, incongruências  e finitude dos  relacionamentos se bem que o contexto pra ele é bem outro, dada a sua vida pregressa- mas o que importa¿  E continuo  a viagem  através dos sentidos,  do  extrassensorial   “apanhando na beira-mar um táxi pra estação lunar...surge a  bela, linda, criatura bonita, nem menina nem mulher  e pelo fogo do seu corpo  centelham raios de sol.”
E com “não admito que me fale assim, sou o  seu 16º  pai,  criptônia  desce em  teu olhar e  foi no  silêncio que  se habitou...e de  um cometa que se espatifou ao meio, surge um asteroide pequeno a que  todos chamam  Terra”... agora  me transporto `ao mundo real, sonhando com a ficção, “enquanto  um olho cego vagueia na multidão”.
E em transe,  danço revisitando o  passado com a serpente e a estrela...  “ninguém tem  o mapa da alma da mulher ...não existe saudade  mais cortante que a de um grande amor ausente, dura feito um diamante,  corta a ilusão da gente”.
E de  Menelau  a Lampião, de Helena de Troia à mulata da terra do condor, vai cantando( e descrevendo com maestria!)  “o feitiço atrativo do amor” e encantando a todos  com lindas e memoráveis metáforas (“a mulher tem na face dois brilhantes”) ...até o golpe fatal com  “mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor”. Uau!
E  aí se encerra o show, deixando a todos extasiados, emocionados, arrepiados.
Uma hora e cinquenta minutos de canções atemporais, prolongando as horas de encantamento, de momentos inebriantes, de  sensações indescritíveis, despertando sentidos, emoções, arrebatando a multidão delirante.
Grande Zé brasileiríssimo Ramalho, humildemente eu lhe  peço  toda a licença poética para aqui despejar  desencontradamente  ( e ainda inebriada!) fragmentos de sua poesia, de suas melodias que impregnaram todo o meu corpo, toda a minha alma!
Nada se compara a ir ao show  de um  ídolo nosso  e estar  tão perto dele!Uuuhuuuu!
Vida loooonga pra vc, Zé!
Um brinde à vida!
Um brinde a vc, meu muso inspirador!