Rosana Gimael Blogueira

domingo, 13 de setembro de 2015

O MINUTO TRANSFORMADOR



Houve uma época
Em que achava meu nariz um despropósito de grande
Em que meus cabelos traduziam minha ebulição interior
Em que meus olhos estrábicos distorciam foco e direção
Em que me afligia com meus seios que não “cresciam”
Em que me atormentava com  a oscilação de peso
E a turbulência dos hormônios.

Houve um tempo
Em que minhas mãos corriam sôfregas sobre o piano
Em que tive como companheira inseparável uma Monareta
Em que passava mais tempo na rua  do que em casa
Entre verdes marrons e azuis e pássaros como companheiros.

Houve uma época
Em que me debrucei vorazmente sobre livros
Em que questionava o mundo e tudo a minha volta
Em que abominei o convencional e todos os dogmas
Em que quebrei paradigmas que não mais me representavam.

Houve um tempo
Em que resplandeci pra vida
Em que minhas pernas anunciavam minha chegada
(E denunciavam o quanto o sol e o mar me faziam bem)
Em que abandonei temporariamente todas as leituras
Em que me afastei de Deus  e acreditei apenas em minha crença
Em ser feliz.

Houve uma fase
Em que vivi tudo intensamente como se nada mais viesse pela frente
Em que descobri na prática conceitos e valores vitais para prosseguir destemida
Em que não acreditava mais no Maktub
Em que meus pés calejaram por  andanças em solos férteis
Em que mergulhei em amores, mares mornos e calmos
E em grandes paixões, mares incandescentes e revoltos.

Houve um tempo
Em que morri por dentro
Em que me voltei para Deus
Em que procurei pelos clássicos menos “malditos”
Em que me inspirei me recriei me sintonizei me abasteci através da música
E de pessoas de boa vibração e de afetos grandiosos
E, então, sobrevivi a tormentas e a contingências.

Hoje é um tempo
Em que sou  adocicada abrandada resgatada por minhas escolhas
Em que me sinto  brindada (impregnada, blindada?!)
Pela sabedoria do avançar dos anos
Pela leveza apenas de ser o que sou
(Por me esquivar  de certa  alienação)
Pela libertação que só o conhecimento traz
Ou pela chama acesa do desejo de viver a vida plenamente.
Hoje prossigo
Sem me agregar a rótulos a padrões impostos
Sem me furtar de ouvir a voz (bendita!) do coração.
Há tempo  
Pra recomeçar  pra me  redimir de erros pra passar a vida a limpo
No presente certo.

Hoje
Fecho as  portas e as janelas  para o passado ruim
E as escancaro- todas elas
Para  perdoar fazer as pazes com o mundo e comigo mesma.
Hoje é o  tempo
Em que me aceito – com todas “as delícias e dores  de ser o que sou”
E também aceito  o que não tem como ser mudado
Sem mais espernear.

Hoje
Me  amo com todas as minhas ( im)perfeições
E me sinto muito mais abastecida de amor e aceitação
Para amar o outro  com suas limitações.
Para relevar ou esquecer
O  que não mais acrescenta e me deixa fora de sintonia.

O Hoje é o meu  presente, o meu novo olhar
Para  um novo despertar
Para a Consciência Cósmica
Para o Eu Sou o que Sou
Para a chegada de novos sentimentos
Para surpreendentes e deliciosas sensações.

Agora
Sigo em frente sem olhar para trás sem mais questionar desacertos
(Apenas aprendi com eles e abrandei  desassossegos).
Sigo  em frente sem alimentar mágoas e  maus pensamentos
Prossigo me esforçando pra  fazer valer (na prática e de verdade!) a compaixão
Sigo munida e fortalecida
Do acolhimento comigo mesma e para com o outro
Da gratidão com tudo o que a vida me trouxe
Da paz que resolveu fazer  do meu espírito morada confortável e aconchegante
Do amor que pulsa pleno e vigoroso
De uma Força Maior
De uma alegria que me invade
E me leva a uma sintonia com o  Divino
E  me traz libertação e luz.

Hoje
Reside em mim um silêncio
“Que ecoa sonoro”
Trazendo revelação transformação e renovação
Arrefecimento do ego.
Esse silêncio tão  esperado  
Tão consentido e tão bem-vindo
Hoje
Estanca  dores
Cala questionamentos inúteis
Afugenta nefastos sentimentos.